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Cultura » Ray Harryhausen em dose tripla

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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2008 | 14h27

Estou há dias para acrescentar o post que vocês vão ler agora, sobre Ray Harryhausen. Há alguns anos, quando visitei o antigo estúdio da Industrial Light and Magic em São Francisco, já tinha ouvido os maiores elogios dos técnicos a este mestre dos efeitos, nos anos 50 e 60. Há pouco, em visita ao Skywalker Ranch de George Lucas, ouvi do próprio Lucas a sua declaração de que o cinema de magia deve muito a Harryhausen e que ele foi ‘o mestre’. Numa época em que ainda não existiam efeitos computadorizados, Ray se valia de marionetes e recursos como a animação quadro-a-quadro para criar gigantes de pedra e exércitos de esqueletos em fantasias que se tornaram cults, senão exatamente clássicas. Com essas criaturas fantásticas vinham também os problemas de proporção e perspectiva e tudo isso Ray Harryhausen e seus técnicos resolviam no olho, ou usando um know-how que hoje parece da idade da pedra. Outro dia, passando pela banca da Flavius DVD, no Centro – consulte o site, se achar mais fácil –, descobri que a Sony lançou três DVDs com filmes antigos cujos efeitos são assinados pelo grande artista. ‘A 20 Milhões de Milhas da Terra’, ‘A Invasão dos Discos Voadores’ e ‘O Monstro do Mar Revolto’ eram todos, originalmente, em preto-e-branco. Os DVDs agora à venda trazem os filmes colorizados por computador, um recurso certamente discutível mas que visa a tornar as produções mais palatáveis para as platéias de jovens, que preferem os filmes em cores. Lembro-me que na entrevista que fiz com Emilio Cecchi, sobre as Jornadas de Cinema Mudo da Sala Cinemateca, ele disse que achava tudo bem com essas reinvenções, desde que os filmes fossem mantidos também nas versões originais. ’20 Milhões’ tem direção de Nathan Juran, um ex-arquiteto que foi cenógrafo antes de virar diretor, trabalhando com John Ford em ‘Como Era Verde o Meu Vale’. Na história, nave norte-americana cai na Sicília trazendo no interior massa gelatinosa que vira monstro de grandes proporções, invadindo Roma e indo se refugiar no Coliseu. ‘A Invasão do Mar Revolto’, de Fred Sears, mostra cientista que investiga com a mulher o desaparecimento de naves dos EUA. Ele descobre que estão sendo interceptadas por alienígenas que lançam um ultimato à Terra – exigindo lealdade ou ameaçando com destruição. O filme é obviamente uma metáfora do perigo ‘vermelho’, em plena época de guerra fria entre as então potências, EUA e URSS, e o combate final ocorre em Washington. ‘O Monstro do Mar Revolto’, de Robert Gordon, consegue ser o mais bizarro dos três. O perigo desta vez vem do fundo do mar, de onde surge polvo que foi submetido à radiação e adquiriu proporções gigantescas, fenômeno que também ocorreu na época com aranhas e formigas. Para completar, o monstro consegue sobreviver fora d’água, o que causa o maior pandemônio em São Francisco. O bom desses filmes é que, a par dos efeitos de Ray Harryhausen, eles recuperam um tipo de cinema que os códigos de comportamentos, não apenas os efeitos, tornaram ingênuo.