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Ray e o sonho de Freud

Luiz Carlos Merten

17 Março 2010 | 09h40

Pierre Giuliani cita o sonho narrado por Freud. Um pai, cujo filho morreu, deixa o cadáver aos cuidados de um serviçal e, vencido pela fadiga, cai no sono. Acorda agitado – o filho lhe apareceu em sonho. ‘Pai, não vê que estou em chamas?’ O pai corre ao quarto vizinho. O serviçal também dormira, a vela da vigília caiu sobre o cadáver e ele realmente estava queimando. Existe aí uma metáfora. Pais e filhos estão no centro do cinema de Nicholas Ray. As relações são quase sempre tensas. James Dean, ou Jim Stark, tenta dialogar com o pai em ‘Juventude Transviada’, mas ele não o ouve. Não é uma atitude isolada. ‘Juventude Transviada’ chama-se ‘La Fureur de Vivre’, A Fúria de Viver, na França, e ‘Rebel Without a Cause’, Rebeldia sem Causa, no original. O último é falso – Ray não faz outra coisa senão expor motivos para a rebeldia de Jim Stark. Há um mito de Nicholas Ray. Ele virou o paradigma de toda uma geração de autores franceses agrupados na nouvelle vague. Godard, Rivette, Trudffaut, todos os idolatravam. Ray era o poeta maldito de Hollywood, o Rimbaud do cinema. Ele filma preferencialmente os jovens. Seus personagens são frágeis, feridos ou neuróticos – para resumir tudo numa palavra, como o faz Jean Tulard, são vulneváveis. De onde vem isso? Os filmes de Ray se prestam tanto às interpretações psicanalíticas. Vamos arriscar… Meu amigo Tuio Becker me contava uma história que nunca consegui confirmar. Ao se casar com Gloria Grahame, Ray já tinha um filho adolescente, do casamento anterior. O garoto teria se tornado amante da madrasta. Por maledicente que seja a história, Gloria, uma atriz cultuada, que filmara com Ray, Fritz Lang e Vincente Minnelli – ganhando o Oscar de coadjuvante por ‘Assim Estava Escrito’, The Bad and the Beautiful –, realmente teve um processo litigioso de divórcio com Ray e afundou em seguida no alcoolismo, o que levou não apenas sua carreira, mas a vida ao colapso. Ray já teria problemas com esse filho? Teve com seu pai? Tenho para mim que, a despeito de sua fama, ele só tem dois filmes realmente grandes – o western ‘Johnny Guitar’ e ‘Jornada Tétrica’, mas este último eu vi apenas uma vez, há 50 anos, e o ardor da juventude talvez em fragmentos de grande beleza. São obras de um autor, é possível, até fácil reconhecer. O cinema é a melodia do olhar, ele dizia, e, para mostrá-lo, não apenas revelava o interior de seus personagens por meio dos olhos, como fazia com que as trocas de olhares muitas vezes conduzissem o fluxo da montagem. Todo o deslumbrante começo de ‘55 Dias de Pequim’ é a prova disso. O mito está encravado na obra, mas a supera. O ano em que mais se fala sobre Ray é o de sua morte, 1979. Depois de um papel em ‘O Amigo Americano’, Ray, que está morrendo de câncer, aceita deixar-se filmar por Wim Wenders em seus momentos finais. ‘Nick’s Movie’ é uma experiência única. Entre o velho indomável, feito ator, e seu diretor se estabelece o que já foi definido como ‘complacência mórbida’. Mas é possível constatar também que Ray fez algo insólito na história do cinema. Física e intelectualmente debilitado, ele virou o perfeito herói de si mesmo. A agonia de Ray, filmada por Wenders, é o mais rayniano dos filmes. Depois da agonia, vem a paz. O passeio no barco para lançar as cinzas tem a paz reencontrada, após a ressurreição, de ‘O Rei dos Reis’, de 1961.