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Cultura » Ratatouille e o crítico

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Luiz Carlos Merten

06 Julho 2007 | 15h19

Não gostaria de ficar repetindo aqui no blog meu texto sobre Ratatouille na edição de hoje do Caderno 2, mas quero só abrir espaço para os comentários de vocês. Gostei muito da nova animação da Disney/Pixar (ou será melhor dizer Pixar/Disney?). O ratinho que quer ser chef é um personagem cativante e seus percalços até ganhar um aliado no restaurante rendem cenas muito engraçadas. Minha preferida é aquela em que ele chama toda a rataria para ajudar na cozinha, mas faz todo mundo lavar as patinhas antes. É muito legal – a parte, digamos, mais infantil de Ratatouille. Porque tem outra parte, e essa é a de gosto mais, para o público adulto. Envolve o personagem do crítico. Para a galera jovem, ele é o vilão, e todo desenho precisa de um. Um vilão que se humaniza e se torna aliado do herói, e nisso vai uma diferença, mas o mais legal do crítico é a discussão que ele permite sobre o sentido da arte. Na cena decisiva, o ratinho precisa submeter um prato ao crítico. Escolhe um prato camponês, ratatouille, um ensopado de legumes. A escolha do prato é ditada por dois fatores – por ser um prato simples, o que torna o refinamento mais sublime, e, claro, por conter (ratatouille) a palavra rato (rat). A cena do crítico é genial. Ele vive ali seu momento proustiano, o tempo reencontrado do Narrador do monumento literário de Marcel Proust. É uma coisa tão sofisticada que só uma parcela do público vai perceber a origem. Mas o diretor Brad Bird – será nome ou pseudônimo? – é muito inteligente. Aproveita a ‘locação’ – Paris, capital da gastronomia – para recriar este momento único em que o poder de evocação da memória reúne passado e presente numa sensação. Genial! E o crítico ainda fala com a voz de Peter O’Toole. Duplamente genial! Fiz uma paura, agora, porque queria acrescentar – e a academia não deu o Oscar de melhor ator deste ano a Peter O’Toole! Juro que me deu um branco. Não me lembrava de quem ganhou. Perguntei ao povo aqui ao meu redor. Forest Whitaker. Há quem defenda a escolha. Eu tirava o Oscar dele sem dó e dava para o O’Toole.