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Luiz Carlos Merten

11 Julho 2010 | 13h20

Mário Kawai chama a atenção para a mostra ‘Bollywood e o Cinema Indiano’, na Sala Cinemateca. Não conferi a programação, mas pego carona nos filmes que ele cita para falar sobre Satyajit Ray. Espero que ‘Canção da Estrada’ ainda não tenha sido exibido, ou em caso contrário que passe de novo. O filme de 1955 é o primeiro de Ray. Chama-se ‘Pather Panchali’ no original, é a adaptação de um romance célebre da literatura bengali e iniciou a trilogia de Apu, que prosseguiu com ‘Aparajito’, O Invencível, em 1957, e ‘Apu Sansar’, O Mundo de Apu, em 1959. Há alguns anos, a Mostra de São Paulo fez uma retrospectiva da obra de Satyajit Ray, que morreu em 1992, logo após ser homenageado pela Academia de Hollywood com um Oscar especial, de carreira. Ele recebeu o prêmio no hospital, quando já estava terminal. Já existia cinema na Índia, mas foi Ray quem lhe deu projeção internacional. É interessante que a mostra da Cinemateca faça o link entre Bollywood e ele, porque Bollywood é uma ilha da fantasia, com seus números musicais, e a obra de Ray fornece um testemunho rigoroso sobre a vida na Índia. Jean Tulard conta que ele pertencia a uma família de artistas e intelectuais. Seu avô foi amigo do poeta Rabindranath Tagore, a quem Satyajit dedicou um documentário, que vi na Falcudade de Arquitetura de Porto Alegre. O pai possuía uma gráfica, mas a empresa faliu e a infância e juventude do futuro diretor foram marcadas pela penúria. Deve ter sido por isso que seus primeiros filmes tomaram o partido das castas inferiores e dos pobres da Índia. Satyajit Ray foi assistente de Jean Renoir, quando ele filmou ‘O Rio Sagrado’ na Índia. O próprio Renoir havia antecipado o neo-realismo em ‘Toni’. Como autores da Argentina e do Brasil, que também se iniciaram nos anos 1950, Ray bebeu na fonte do neo-realismo italiano, fazendo filmes com pouco dinheiro e grande comprometimento humano e social. ‘Canção da Estrada’ conta a história de uma família pobre, pelo ângulo do filho, um garoto. O grande peso da família é a velha tia, que come demais e cria constrangimentos para todos, especialmente para a sobrinha – a mãe – que lá pelas tantas é acusada de roubar frutas para que ela possa comer. Numa cena, a própria tia toma consciência de quanto prejudica a todos – as crianças passam fome por causa dela – e resolve ir embora, mas a mãe a impede, numa cena de cortar o coração. Apesar da desgraceira, o filme tem momentos de humor e carrega uma dose de esperança. O pai, apesar de tudo, mantém seu otimismo e as crianças não deixam de brincar (e brigar), como em toda família. Assisti a ‘Pather Panchali’ em Cannes, numa versão restaurada, em Cannes Classics. Naquela loucura que é o maior festival de cinema do mundo, chorei por Apu, por sua mãe – uma atriz extraordinária – e pela tia-avó, outra figura inesquecível. Não conheço tanto quanto gostaria da obra de Satyajit Ray, mas, além da trilogia de Apu, tive o privilégio de assistir aos filmes que são considerados suas obras-primas, ‘A Sala de Música’, sobre um rajá que leva sua família à ruína, por amor à música, e ‘Os Jogadores do Fracasso’, este um filme impressionante, sobre uma elite que prossegue imperturbável com as partidas, enquanto seu mundo entra em colapso. O próprio Satyajit Ray, mesmo consciente de sua dívida com Jean Renoir, revelou certa vez que suas escolas, suas preferências, foram John Ford e o neo-realismo. Ambos estão em ‘Canção da Estrada’. Um cara desses só merece admiração. Vão ver ‘Pather Panchali’ e depois me digam se não é rasga coração.

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