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Cultura » ‘Rango’!

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Luiz Carlos Merten

13 Março 2011 | 12h07

Vocês sabem que volta e meia sou atropelado pelas estreias de filmes de cuja existência nem suspeitava. ‘Rango’, por exemplo. Achei bem esquisito o anúncio com a cara daquele lagarto. Rango, para mim, existia um só e era o personagem criado pelo cartunista gaúcho Edgar Vasquez. Pois agora existe o de Gore Verbinski. Um pouco pelo nome do diretor, fui ver o filme na sexta à noite, no PlayArte Marabá. Como sou o maior frequentador do conjunto de salas da av. Ipiranga com São João, vou me permitir uma reclamação.  Dona Elda diz que o que dá dinheiro é a bombonnière, com a venda de pipoca e refrigerante. Eu queria água. Já era a última sessão. Havia um monte de gente e poucos funcionários na que fica no saguão principal. Fui à dos fundos, estava fechada. Subi para o piso superior, também estava fechada, mas os filmes ainda não haviam começado, não apenas o ‘Rango’. Não é mais lógico esperar o início da última sessão para parar de vender o que, afinal, segundo a dona do negócio, é o que lhe dá dinheiro? Bom, de volta ao filme, foi curioso assisti-lo sedento, já que a ação se passa toda no deserto, na cidade de Dirt, batizada de Poeira, onde a população também está morrendo de sede. Digamos que eu estava totalmente no clima, mas não foi por isso, ou só por isso, que gostei. O filme é uma paródia de western estrelada por animais pouco nobres. O mocinho é um camaleão e a trama é cheia de tartarugas, cobras, toupeiras. Ah, sim, tem a águia, uma vilã tão assustadora que mete medo até em Kid Cobra. Até por ser camaleão – e se adaptar às circiunstâncias, remember ‘Zelig’, a obra-prima de Woody Allen -, Rango vive trocando de pele e não sabe direito quem é. Mas ele sabe o que gostaria de ser – herói. Pois Rango vira herói de western num filme cheio de referências a Leone – na trilha, no personagem do Estranho sem Nome, na própria ideia da ferrovia como símbolo do progresso, que vai matar o Velho Oeste (aqui substituída pela rodovia). Estou falando das claras referências a Leone, mas Verbinski também se refere ao outro Sérgio, Corbucci. A cidadezinha seca é o oposto da barrenta de ‘Django’ e tenho para mim que há uma sonoridade que aproxima o nome do lagarto do personagem de Franco Nero. Gostei muito de ter visto ‘Rango’, mas me pergunto se o filme é realmente bom. Eu gostava das referências, das citações, da subversão de velhos códigos narrativos e, ao mesmo tempo, tinha consciência de que aquilo não estava sendo tão engraçado quanto talvez devesse ser. Eu via, não ria. No final, quando Rango decide quem é e vai à luta, aí sim, vibrei e me emocionei como se estivesse num western clássico (e tanto faz que Rango seja um lagarto e não John Wayne, ou James Stewart, Gary Cooper e Randolph Scott). É bem interessante esse Verbinski. Seu primeiro longa, ‘O Ratinho Encrenqueiro’, mistura de animação com live action, era bem divertido. Verbinski ama os gêneros. ‘A Mexicana’ já carregava nas referências a Leone, mas não deu muito certo, exceto nas cenas em que James Gandolfini, de ‘A Família Soprano’, dava um baile na dupla de astros Julia Roberts e Brad Pitt. Veio depois o remake de ‘The Ring’, que tinha um bloco de cenas, reconstituindo o passado e a origem da maldição, realmente impressionante, para não dizer brilhante. Não duvido que Verbinski tenha sido escolhido pelo produtor Jerry Bruckheimer para a fazer a série ‘Piratas do Caribe’ por causa daquilo. ‘Piratas’ era uma mistura de tudo – ação, romance, aventura no mar, capa e espada, terror e muito humor. Não morro de amores pela série, mas mentiria se dissesse que não me divirto com Jack Sparrow e seu bando. Agora, Verbinski chega ao western. Será que ele desistiu de ”Piratas 4′ por causa desse projeto? Vou rever ‘Rango’. Assisti na versão dublada, quero ver com a voz de Johnny Depp. Não sei se vai mudar muita coisa – o portunhol é um dos fatores que contribuem para a diversão -, mas quero conferir.