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Luiz Carlos Merten

11 Novembro 2006 | 09h47

Em 1954, Joseph Mankiewicz realizou um filme que virou clássico – A Condessa Descalça, com Ava Gardner no papel de Maria Vargas, essa mulher que dança descalça nas ruas da Easpanha e se transforma em estrela de Hollywood, mas é sempre uma Cinderela, sonhando com seu príncipe encantado. Ela o encontra, é um aristocrata italiano, o conde Torlato Favrini, interpretado pelo Rossano Brazzi, que encarnava, na época, o italiano sedutor (como Louis Jourdan também era o francês charmoso). Maria ganha o sobrenome ilustre, torna-se a condessa Torlato Favrini, mas sua vida vira uma tragédia maior ainda do que já era – seu príncipe é impotente e ela tem necessidades afetivas e sexuais que ele não pode satisfazer. Adoro o cinema da palavra de Makiewicz e as suas personagens femininas, os grandes papéis que ele ofereceu a atrizes como Bette Davis, Ava Gardner e Elizabeth Taylor. Vou defender até à morte a Cleópatra de Mankiewicz, da qual ele próprio não gostava. Mas eu nunca senti tanto o peso de Shakespeare no cinema como na cena em que Richard Burton, como Marco Antônio, morre nos braços de sua rainha, Mankiewicz coloca a câmera no alto, Liz Taylor olha para cima e diz que nunca houve tamanho silêncio. Me emociono só de lembrar. Conta a lenda que Mankiewicz teve a pior fase de sua vida ao reealizar o filme, tumultuado pelo início do romance entre Liz, a maior estrela do começo dos anos 60, e o Burton. Ele pegou tal ódio por Cleópatra que só se referia ‘àquele filme’, nunca mais citou seu título. Por que lembro isso? Porque fui ver ontem o novo show de Maria Bethânia, no Tom Brasil. E a Bethânia é sempre uma rainha descalça, com aquelas corridinhas no palco, com os pés ‘no chão’, como se diz no Sul, que ajudaram a esculpir seu mito. Acho Bethânia um fenômeno. No começo de sua carreira, ela não separava as sílabas direito ao cantar, ou tinha problemas de respiração. Cantava meio truncada, meio ofegante, mas já era tão poderosa em cena que deixava todo mundo siderado. E ainda havia, digamos, seu comportamento pouco convencional fora do palco. Nunca esqueço a entrevista que Bethânia deu ao Pasquim, quando ela falou que a comida baiana a deixava ‘tesuda’. A palavra fazia parte do meu repertório, como de todo mundo – tesão, tesudo –, mas acho que nunca a havia visto impressa. Sua franqueza foi um choque. Bethânia adquiriu uma técnica extraordinária. está cantando melhor que nunca. E ela tem domínio de cena. Deixa claro quando declama, quando se senta para cantar o rio Gererê, no momento, para mim, mais bonito do espetáculo. Bethânia é sempre maravilhosa, com seu conceito de que a música é perfume. Mas achei que este é seu show menos maravilhoso. Não gostei do cenário, aliás, no começo do cenário até gostei. Aquelas nuvens, sobre as quais se agitavam os véus de tule, criando um efeito de água, o tema do espetáculo. Mas quando começou aquele monte de luzes e aquela árvore itinerando de um canto a outro do palco achei muito brega. Não, vou mudar a palavra – vulgar. O figurino é de lascar, principalmente a segunda roupa que ela usa. Lutando contra a luz, a cenografia e o figurino, Bethânia era ela contra tudo e todos. Estava se saindo bem, claro – com reforço daquela banda maravilhosa –, mas aí cometeu o que, para mim, foram dois erros fatais. Cantou a letra dos Titãs com o papel na mão, o que eu sempre acho o fim (Gal Costa faz muito isso, lendo no chão, no papelzinho). E revirou no baú da memória para buscar um texto do Álvaro de Campos, de 1917!, para falar mal do Brasil de hoje. O público do Tom Brasil, uma gente tão avançada, pelo visto todo mundo do PSDB, aplaudiu feito louco. Eu, como se diz no jogo de cartas, passo. Continuo amando minha rainha descalça, mas prefiro esperar pelo próximo show.