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Luiz Carlos Merten

29 Maio 2008 | 12h28

Estreou ontem em Paris ‘Sex in the City’, que eu estou até com medo de ver. Nunca assisti à série e, pelos comentários que ouço, o problema do filme é um pouco a necessidade de contextualizar a história e as personagens para espectadores como eu. Cheguei a ouvir gente dizendo que o começo é ‘affligeant’ (aflitivo) por causa disso, mas essas mesmas pessoas dizem que depois melhora. Só achei curioso o que li ontem num jornal, enquanto aguardava o vôo de volta para Sampa. A jornalista relata uma coletiva de Sarah Jessica Parker e começa citando uma coleguinha brasileira para dizer que foi marcada pela futilidade. Segundo ela, a companheira teria feito a primeira pergunta e era – ‘Sarah, que batom você está usando?’ Não duvido que isso possa ter ocorrido, até porque um marco na minha vida foi a coletiva de Sophia Loren, no Rio, quando uma garota, malpreparada, perguntou a Sophia o que ela achava de ser tão parecida com Maria Fernanda Cândido. As pessoas muitas vezes não têm noção, mas deixa pra lá. Ao invés de ‘Sex in the City’, fui ver à tarde – depois de almoçar num bistrô grego, porque ninguém é de ferro – ‘Je Veux Voir’, na abertura da mostra Un Certain Regard à Paris, com os filmes que integraram a seção em Cannes. Achei muito interessante. O filme de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige nasceu da vontade dos dois, de origem libanesa, de refletir sobre a destruição de parte do Líbano pelos ataques da aviação isralense. O filme é interpretado por Catherine Deneuve (como ela mesma) e Rabih Mroue. Logo na abertura, Catherine diz que quer ver a destruição e pessoas ligadas à própria produção tentam dissuadí-la, dizendo que é perigoso e, no limite, ela não vai ver nada porque depois do bombardeio equipes de destruição limparam os lugares, transformando tudo aquilo numa terra de ninguém. Mas Catherine insiste, e vai. O filme se constrói no limite da ficção e do documentário. O motorista é fã da bela da tarde e inicia um diálogo com ela, lembrando falas de Sévérine no clássico de Luis Buñuel. Ele se distrai e entra por uma estrada lateral, sendo seguido pelos integrantes da equipe aos gritos. Todos caminham exatamente sobre as marcas das rodas, porque o terreno é minado. Ou aquilo ocorreu de fato ou Catherine é a melhor atriz do mundo, porque, procurando manter a calma, sem nenhuma histeria, dá para ver que ela está tensa (e com medo). ‘Je Veux Voir’ oferece uma discussão muito interessante sobre o desejo e a impossibilidade de ver, na vida e no cinema. Catherine é usada como escudo, porque, somente com ela, a equipe ganha licença para filmar em locais que seriam vetados pelo Exército de Israel. Numa cena, a imagem, superexposta à luz, passa ao registro contrário, o do escuro, como se o filme entrasse num túnel. A tela fica preta e ouvem-se apenas as vozes de Catherine e seu motorista, que seguem conversando. No final, Catherine vai a uma recepção. Encontra pessoas para as quais ela é, como para nós, o mito. As pessoas conversam banalidades com ela. Catherine parece meio perdida naquele salão. É educada, gentil, mas ausente. De repente, seu olhar se ilumina. Ela vê, do outro lado da sala, o motorista. Os dois ficam trocando olhares, ela sorri. Não é que tenha pintado um clima entre os dois, mas é o olhar de reconhecimento, num filme que é sobre isso. Vivemos na era da imagem, mas no fundo as pessoas não são solicitadas a ver de verdade. Achei muito legal o filme de Joana e Joreige, mas é tudo ou nada. Dependendo do espectador, pode ser estimulante, o tudo. Para quem chega nele em busca de uma ‘história’, será o nada. Saí do cinema, o Reflets Médicis, no Quartier Latin, com a cabeça a mil. Tomei um café e entrei em outra sala ali perto, o Espace Saint Michel, onde havia revisto ‘Pelle, o Conquistador’, para assistir a outro vencedor da Palma de Ouro – ‘Viridiana’, de Luís Buñuel. Que cópia, que filme! Tinha minhas diferenças com ‘Viridiana’, mas pela primeira vez o filme me ganhou de fato. Dali fui para o aeroporto, pensando, com meus botões, que Paris, mais do que qualquer outra cidade, é uma festa para cinéfilos que, pegando carona no filme franco/libanês, queiram ver.