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Luiz Carlos Merten

05 Julho 2008 | 11h46

Estou no Centro e vou postar rapidinho porque mal vou ter tempo de almoçar e já sigo para Paulínea, onde ocorre hoje às noite a abertura do festival de cinema brasileiro. Amanhã participo de um debate sobre jornalismo cultural, mas antes devo rever ‘A Vida não Cabe num Cadillac’, de Reynaldo Pinheiro. Já assisti ao filme no Recife, logo depois que ele foi premiado no Cine Ceará. Adoro o Reynaldo e a mulher dele, a dublê de cineasta e psicanalista Miriam Schnaiderman, mas como uma coisa não tem nada com a outra, não gostei nem um pouco do ‘Cadillac’, apesar dos prêmios que vem colhendo em todos os festivais de que participa. Quem sabe – deixem-me ser otimista – descubro hoje qualidades que me passaram despercebidas? Como não disponhop de muito tempo, vou ler os comentários de vocês sobre posts anteriores – se é que existem – mais tarde. Agora, quero dizer duas ou três coisas. Primeira – o ciclo de Bergman vai sair, no HSBC Belas Artes, com direito a encontro (nosso, de vocês e meu) no dia 15, um dia antes do meu embarque, agora para a Polônia, onde ocorre uma mostra de cinema brasileiro, a partir de 17, da qual fiz a curadoria, a pedido dse Ursula Grozka. Como o tempo escoa e a sessão cinéfila do Espaço Unibanco começa em minutos, ao meio-dia, deixem-me falar voando sopbre o filme de hoje, que não vou poder reverr, mas gostaria. É o ‘Vou para Casa’, de Manoel de Oliveira, com Michel Piccoli em estado de graça, como este velho atror shakespeariano que perde a família num acidente e se vê às voltas com a tarefa de cuidar do neto. O grande Manoel fez o filme em francês. Em Cannes, este ano, ele recebeu uma Palma de Ouro especial, por sua carreira. Foi, talvez, o momento mais bonito – e emocionante – do evento. O próprio Gilles Jacob redigiu um texto que era um (duplo) primor, como crítica e peça literária. ‘Cher Manoel…’ Querido Manoel. Walter Salles disse que o quase centenário Oliveira é o cineasta mais jovem do mundo. Michel Piccoli recita ‘Rei Lear’ na abertura de ‘Vou para Casa’ – tudo a ver com o tema da perda e o título do filme. Numa cena maravilhosa, depois de comprar um sapato, ele se senta num café. Oliveira filma somente seus pés – e sapatos novos -, os cordões desamarrados. É uma reinvenção de Godard, do magnífico episódio ‘A Preguiça’ (La Paresse), de ‘Os Sete Pecados Capitais’, em que Eddie Constantine, o Lémmy Caution, também conversa com seu sapato numa mesa de bar, tão preguiçoso que não tem ânimo nem de sair dali para fazer sexo.