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Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2006 | 16h55

Ontem de manhã, domingo, estava sozinho na redação do Estado quando entrou o Antônio Gonçalves Filho, em estado de graça porque havia assistido, no dia anterior, ao DVD de Querelle, último filme realizado pelo Fassbinder, que saiu pela Versátil. As filmografias do autor situam sempre Querelle no próprio ano (1982) da sua morte. O lançamento, inclusive, foi póstumo. Fassbinder pertence a uma geração que irrompeu no cinema nos anos 60 para iniciar uma verdadeira revolução – estética, política, de costumes. Radicalizando arte e vida, ele fez uma quantidade incrível de filmes, às vezes três ou quatro no mesmo ano, reformulando o melodrama clássico (amava Douglas Sirk) e propondo uma história crítica da sociedade alemã no pós-guerra, com seus retratos de mulheres (Maria Braun, Lili Marlene, Lola). Não gosto de tudo o que Fassbinder fez e nem creio que isso seja possível. Foram 32 longas em 13 anos, mais os curtas e um monumento de mais de 15 horas para televisão (Berlin Alexanderplatz). É muita coisa e a urgência, muitas vezes, é inimiga da perfeição. OK, o cinema de Fassbinder não era sempre perfeito, mas às vezes era e isso é que conta. Este sempre foi, para mim, o caso de Querelle, cuja teatralidade, há mais de 20 anos, me deixava nos cascos (como se diz no Sul). Não há o menor naturalismo em Querelle. Tudo é estudado, artificial, todos os cenários são construídos e o que sempre me impressionou foi a abordagem do homossexualismo, a partir do texto do Jean Genet. O próprio Genet foi um personagem e tanto. Delinqüente, ladrão, presidiário, gay, foi resgatado por Sartre e Cocteau, que descobriram seu gênio e obrigaram a França conservadora a encarar este grande transgressor, antecipando processo semelhante ao que ocorreria na Itália com Pier-Paolo Pasolini. Genet não queria compreensão para os homossexuais, não queria integração social. Arco-íris, passeata do orgulho gay, ele não viveu para ver nada disso, mas duvido que fosse ‘sensível’ a essas reivindicações. Genet avançava na porrada. Identificava homossexualismo com marginalidade e/ou criminalidade. Seu homossexualismo é selvagem, violento, uma coisa marginal, sempre no limite. Seus textos, como os filmes do Fassbinder, são profundas contestações do mundo burguês. Querelle é Genet, é o próprio Fassbinder. Transgressor, criminoso de si mesmo, Fassbinder morreu de uma mistura de soníferos e cocaína. Sempre tive para mim que ambos, Genet e Fassbinder foram vítimas dos próprios mitos que ajudaram a construir. Viraram reféns das suas personas. Isso era, talvez, particularmente verdadeiro para o Fassbinder, cujos biógrafos asseguram – ele era tirano, dificultava ao máximo a vida dos que o amavam. Barra pesadíssima. E tem o ator, Brad Davis, que havia feito Expresso da Meia-Noite, de Alan Parker, em 1978 (com roteiro vencedor do Oscar de Oliver Stone). No Expresso, Davis faz o jovem americano que conhece o inferno numa prisão na Turquia, para onde é levado, por porte de haxixe. Uma estação no inferno – homossexualismo, violência, tortura. O inferno continua em Querelle, mas agora é interno (apesar da violência externa). Brad Davis morreu de aids. Nunca soube que ele fosse gay. Era mais provável que fosse drogado ou, vá lá que seja, bi. Tinha cara de bom moço, mas prestou-se a todas as loucuras criativas de Parker e Fassbinder. Ninguém escapa impunemente a filmes como esses. Ao penetrar nesse universo doentio de mitos destrutivos, Brad Davis talvez tenha conhecido na pele o que Fassbinder colocou no título de um de seus filmes (e virou título de sua biografia) – O Amor É Mais Frio Que a Morte.