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Cultura » Quem foi Mikhail Kertész?

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Luiz Carlos Merten

29 Julho 2009 | 19h47

Mauro Brider quer saber o que eu penso sobre Michael Curtiz. Ele foi um dos pilares da Warner, na grande fase do estúdio, com Raoul Walsh. Cada um realizava dois, três, quatro filmes por ano. Digamos que Walsh, no limite, foi mais autor, mas Curtiz também frequentou todos os gêneros e dirigiu os maiores astros. Historicamente, coube-lhe a glória de revelar Bette Davis e Olivia Havilland. E o que seria de Errol Flynn sem Michael Curtiz? Ou de Humphrey Bogart? Nascido Mikhail Kertész na Hungria, em 1888, quando os escravos estavam sendo emancipados no Brasil – o último país, no mundo, a libertar os escravos –, morreu em Los Angeles, com o nome famoso, em 1962. Ele estudou na Real Academia de Artes de Budapeste e se iniciou como ator. Na Suécia, foi assistente de Mauritz Stiller e Victor Sjostrom. Consta até que teria dirigido Greta Garbo numa ‘História das Mulheres Ilustres’. Em 1926, desembarcou nos EUA para realizar, em Hollywood, ‘A Arca de Noé’. Mauro Brider conta que tem um encanto todo especial por ‘Capitão Blood’, que tem aquele duelo de espadas entre Flynn e Basil Rathbone, mas, em matéria de aventura nos mares, por mais que goste do filme adaptado do livro de Rafael Sabatini, prefiro ‘O Gavião do Mar’, também com Errol Flynn, que tem aquele travelling sobre Brenda Marshall num jardim florido (de rosas) e cuja trilha, de Erich Wolfgang Korngold, é magnífica. Com Flynn e Olivia de Havilland, Curtiz fez, em parceria com William Keighley, ‘As Aventuras de Robin Hood’, que é maravilhoso (e tem outro duelo antológico de espada do mocinho com o vilão Rathbone). Qualquer crítico vai dizer que ele, como bom europeu, ajudou a fazer a ponte do expressionismo para Hollywood, por meio de filmes noir e clássicos de gângsteres que fizeram história. Desnecessário lembrar que Curtiz ganhou o Oscar de direção por ‘Casablanca’, filme que foi sendo improvisado no dia a dia, até virar o cult idolatrado por cinéfilos de várias gerações. ‘Play it again, Sam’… É o único filme celebrado por um diálogo que a protagonista, Ingrid Bergman, nunca diz, mas que importa? Bogart e ela são o suprassumo do romantismo. Tenho um carinho especial por um filme de Michael Curtiz que descobri em vídeo. ‘O Rebelde Orgulhoso’ (The Proud Rebel) é de 1958. Alan Ladd faz um personagem que, de certa forma, retoma o tipo puro e triste celebrizado por ‘Shane’ (Os Brutos também Amam), de George Stevens. Ele tem um filho, interpretado por seu filho, o futuro produtor David Ladd. O menino ficou mudo em consequência do trauma produzido pela morte da mãe num incêndio, durante a Guerra Civil. Pai e filho caem na estrada. O garoto carente liga-se ao cavalo que o pai vai vender para pagar o tratamento que poderá lhe devolver a voz. A esta altura, Alan Ladd já foi trabalhar na fazenda em ruínas de Olivia de Havilland, com quem vai se envolver, claro. A presença do herói violento e do menino remete ao western clássico de Stevens e a invasão do gênero pelo melodrama pode ser outra referência àquele filme. Sei que, quando descobri ‘O Rebelde Orgulhoso’ em 1991 – fui checar a data em que publiquei meu texto sobre ele no ‘Caderno 2’ –, me encantei pelo filme. Michael Curtiz adaptou o romance de Mika Waltari em 1954 para discutir, com ‘O Egípcio’, e não na perspectiva cristã, o tema do monoteísmo. Ele voltou à religião em um de seus últimos filmes, ‘São Francisco de Assis’, com Bradford Dillman na pele do poverello de Assis e Hope Lange, que virou freira, na de Santa Clara. O ‘São Francisco’ de Michael Curtiz foi sempre desprezado pelos críticos como convencional, mas é preciso dar o desconto de que nenhum crítico vai resistir à tentação de compará-lo a ‘Francesco, Giullare di Dio’, de Roberto Rossellini, que é um dos filmes viscerais do começo dos 50. O último filme de Curtiz foi um western pró-índio, ou contra os brancos que vendiam armas aos peles-vermelhas. Guardo uma ótima lembrança de ‘Os Comancheros’, que tem John Wayne e uma atriz que eu adorava, mas que nunca foi estrela, Ina Balin. Conta a lenda que Curtiz, no set, era o mais autoritário dos diretores. Falava um péssimo inglês e isso até inspirou o título de sua autobiografia, que não me lembro agora, mas imagino que alguns de vocês adorarão procurar na rede (e me informar; por favor). Jean Tulard talvez seja mais entusiasta que eu, mas ele considera a lista das obras-primas de Curtiz na Warner, entre 1926 e 53, impressionante. Há uma para cada gênero, do filme de guerra à comédia musical, do melodrama à espionagem, do boxe – ‘Talhado para Campeão’, refilmado com Elvis Presley – ao western, do noir aos gângsteres. Talvez não tenha sido um ‘autor’, mas duvido que se possa ser cinéfilo sem ter amado, em algum momento, as grandes contribuições de Curtiz/Kertész à arte de narrar.