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Luiz Carlos Merten

26 Fevereiro 2008 | 10h59

Saymon tem exagerado nos comentários para desqualificar ‘Desejo e Reparação’. Será que estamos falando do mesmo filme? Saymon chama Joe wright de torpe e o acusa, no limite, de entregar lágrimas baratas em sua adaptação do romance de ian McEwan. E não adianta dizer que o final é diferente, que num o reconhecimento da culpa e o desejo de reparação vem num programa de TV e no outro quando a autora assiste à representação de sua primeira peça e se debruça sobre o próprio passado. Cinema é uma coisa, literatura é outra. Visconti (‘O Estrangeiro’) e Welles (‘O Processo’), para citar apenas dois exemplos, foram acusados de ‘trair’, ‘simplificar’ e até ’empobrecer’ Camus e Kafka, mas, na verdade, o que eles criaram foi outra coisa. Richard Brooks edulcorou ‘Os Irmãos Karamazov’, mas e daí? Não vejo há muitos anos o filme com Yul Brynner e Maria Schell, mas a cena com David Oppatoshu – o velho tio Akiva revolucionário de ‘Exodus’, de Preminger – faz parte do meu imaginário e eu às vezes me surpreendo lembrando-me dela com outros momentos inesquecíveis. Enquanto isso, filmes que eu admitiria serem mais densos foram para o brejo. Cada vez me convenço mais que vi outro filme, no caso de ‘Desejo e Reparação’. Gosto do romance, mas o filme me toca de uma maneira especial. Quanto às lágrimas baratas… Eu, que sou o maior chorão, fico engasgado em ‘Desejo e Reparação’. Aquilo tudo é tão pungente, tão doloroso que eu fico clamando no deserto pela minha catarse e ela não vem, o que faz com que o filme me persiga. Nenhum outro filme desta edição do Oscar me provocou esta reação. De volta ao Saymon, Régis e ele entraram numa discussão sobre exagero na interpretação do fulano, do sicrano. Estou pronto a assinar embaixo que o Al Pacino exagera em ‘Scarface’, mas esta é uma exigência do filme de Brian De Palma, que eu vou ao inferno para defender (enquanto ‘Dália Negra’ e ‘Redacted’, do mesmo diretor, não me dizem muita coisa. Bye-bye politique des auteurs…) Existe um filme antigo de Jacques Démy, no alvorecer da nouvelle vague, ‘Lola’. No Brasil, ganhou o acréscimo de ‘A Flor Proibida’ ao título original (por que, meu Deus?). Démy faz uma releitura ‘cotidiana’ da Odisséia, que é vista pelo ângulo da mulher que espera seu Ulisses que partiu. O filme é um dos meus preferidos da nouvelle vague. Anouk Aimée, que faz o papel, é uma atriz mítica, mas sua afetação em ‘Lola’ representa talvez o momento mais discutido de sua carreira. Só que esta afetação não é um equívoco da atriz, mas está de acordo com um conceito do diretor que dá o tom de seu filme. Querem saber o que eu penso de verdade sobre o Daniel Day-Lewis de ‘Sangue Negro’. Era uma atuação para Oscar, milimétrica, e ele foi competente. Ganhou. Paul Thomas Anderson deixou claro, em tudo que é entrevista que deu em Berlim, que lhe bastavam quatro prêmios da Academia de Hollywood – melhor filme, diretor, roteiro (dele próprio) e ator. Ou seja, ele também fez ‘Sangue Negro’ para o Oscar. Daniel ganhou, Anderson perdeu. E estamos conversados.