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Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2010 | 18h56

TIRADENTES – Nada como o tempo para recolocar as coisas em perspectiva. ÀS vezes, até tento ler o que os outros escrevem, mas em geral me desinteresso. Nas abordagens sobre o cinema brasileiro, a crítica dominante é hoje ao formato ‘televisivo’ dos filmes, como se isso fosse suficiente para matar o assunto. Não é, até porque, na maioria das vezes, o apelo ao tal formato é a forma mais preguiçosa de se desembaraçar de alguns títulos que os sujeitos, ou sujeitas, obviamente não estão achando dignos de suas luzes. Antigamente, os clichês eram outros e os críticos justamente falavam em estereótipos. Em Paris – preciso voltar a São Paulo para ver se touxe o folheto na mala, ou entre livros e revistas -, pegando carona na reprise de ‘Quanto Mais Quente Melhor’, encontrei esse texto de um cretino qualquer que caiu matando no clássico de Billy Wilder. Humor raso, situações estereotipadas, homofobia – numa época em que o termo ainda não era empregado -, o texto, além de um modelo de lugares comuns, poderia se referir a não importa que comédia, como em certos textos atuais se pode mudar o título do filme e o resto continua tudo igual. Ah, sim, por que estou escrevendo isso? Porque achei engraçado, mas também me surpreendo porque até hoje entram certos e-mails com comentários sobre posts antigos. Só hoje entraram dois sobre ‘Canções de Amor’, de Christophe Honoré, de pessoas que devem ter visto ‘Non, Ma Fille’ e quiseram conferir o que já havia escrito sobre o autor. Homófobo, antiquado, ultrapassado, mais gente quis me aposentar. E eu gosto tanto do Homoré, de ‘Canções de Amor’, inclusive, mas no texto estava tirando sarro de meu amigo Rodrigo Fonseca, machão de carteirinha, que se horrorizara ao ver o belo Louis Garrel – o belo é definição minha, Rodrigo não admitiria nem sob tortura – ceder ao garoto gay, quando tinha todas aquelas gostosas à mão. Na verdade, arrisco-me a ganhar novas pauladas, mas quero falar rapidinho de ‘A Moda da Casa’, que vi no sábado à noite, em Sampa, antes de viajar, no HSBC Belas Artes. O filme é sobre esse chef gay cuja maior preocupação na vida é adquirir a estrela do guia Michelin para seu restaurante. Ele vive para este mítico dia em que o enviado do guia vai se sentar em seu restaurante, mas aí sua ex-mulher morre e ele tem de assumir o casal de filhos, em meio a uma tempestade no seu local de trabalho (e na vida pessoal). Um amigo tinha ido vir e me disse que quase morreu de rir. Fui – e naquela sessão a plateia também se divertia imensamente. Clichês, piadas homofóbicas – tive a curiosidade, agora, de zapear na rede para ver o que haviam escrito sobre o filme de Nacho G. Velila. As críticas seguem nesse diapasão e poderiam ser sobre ‘Quanto Mais Quente Melhor’, pelo menos segundo aquele modelo de abordagem denunciado no folheto que descobri em Paris. Confesso que achei o diretor mais inteligente do que seus críticos. As piadas mais homofóbicas de ‘À Moda da Casa’ se baseiam sempre em aparências ou mal-entendidos e, como nós, o público, sabemos o que está ocorrendo, a reação das pessoas expõe o preconceito e, ao rir, é o próprio preconceito que temos de encarar (e o riso fica nervoso, quando não engasga). O problema do filme, e é um problema, é que o espectador antecipa o momento em que o protagonista vai rever suas expectativas e chegar a bom termo com o filho adolescente, que também vai aceitá-lo como é, percebendo o bom pai que tem, a despeito dos trejeitos e do affair de papi com o ex-jogador de futebol – argentino! – que sai do armário. Cinematograficamente, esse desfecho é débil, o que enfraquece – dilui? – a força do filme, mas eu acho que só de muito mau humor o espectador não vai curtir o que três atores ‘almodovarianos’ acrescentam aos papéis. Javier Cámara, de ‘Fale com Ela’, Lola Duenãs e Chus Lampreave são muito engraçados, sem deixar de ser humanos (todos!) e quem já entrevistou ‘Pedrito’ sabe que ele tem uns pitis parecidos com os do chef e até os exagera porque sabe que, no fundo, é o que se espera dele, como marketing, independentemente de ser um dos maiores e mais maduros homens de cinema do mundo. Espero não estar exagerando as ‘virtudes’ de ‘À Moda da Casa’, só deixando vocês com um ‘pouquinho’ de vontade de ver o filme de Nacho Velila. Que, a propósito, quem é?

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