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Quem é que merece Ozu?

Luiz Carlos Merten

03 Julho 2010 | 11h09

CANCUN – Quando cheguei a Sao Paulo, no fim de 1988, nao conhecia nada da cidade. Comecei a mapeá-la. Naquele tempo havia, nao sei se ainda há, um onibus que a gente tomava aos domingos na Praca da Republica para fazer o tour da cidade, num espectro que ia do Ipiranga à fundacao Oscar e Maria Luiza Americano, no Morumbi. Mas houve um lugar que me tocou particularmente, aquele museu de arte sacra na Av. Tiradentes. Anexo, havia uma parte reservada, nao sei se persiste, que era um claustro,um convento de carmelitas. Podia-se ter acesso ao jardim, onde havia o cemitério das religiosas. Os túmulos eram simples pedras, nao propriamemte abandonadas, mas sem nenhuma indicacao dos mortos, ou das mortas. Nenhum nome, data, nada. O corpo é um envólucro para a alma e ela é que interessava, ou devia interessar àquelas mulheres. Por que estou me lembrando disso? Por causa de Ozu. Ontem, ao redigir o post sobre o grande diretor japones, com medo de perde-lo pela segunda vez, terminei nao acrescentando informac0es que compoem a biografia do artista e me parecem essenciais. Ozu desenvolveu o hábito do álcool desde muito cedo. Era alcoólatra, compartilhando essa característica com outro genio do cinema japones, Kenji Mizoguchi. Mas Ozu tinha as suas particularidades, as suas idiossincrasias. Viveu a vida inteira com a mae, sem se casar e passou por uma crise profunda quando ela morreu, no comeco dos anos 1960. O próprio Ozu morreu em 1963, no dia em que completava 60 anos. Sempre achei impressionante, como me impressiona a informacao final, que vai ajudá-los a entender porque comecei o post pela história das carmelitas. No seu túmulo, Ozu nao quis que fosse colocada nenhuma inscricao, nenhuma identificacao, só o ideograma japones da palavra que significa ‘nada’.  À medida que ele evoluía como artista, Ozu ia depurando cada vez mais seu estilo e, por isso, ao retomar temas e tramas, ele abandonava cada vez mais o supérfluo para se concentrar no nervo, no que era absolutamente necessároio. Nao vou dizer que Ozu merece que voces o vejam e, muitos, descubram. Voces, meus amigos, é que merecem Ozu.