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Cultura » Quem é ‘L’Artiste’, afinal?

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Luiz Carlos Merten

15 Maio 2011 | 12h13

CANNES – Michael Haneke fez escola no cinema austríaco e no maior festival de canima do mundo. Markus Schleinzer, seu colaborador em ‘A Fita Branca’ – foi quem escolheu e preparou o elenco de crianças -, integra a competição com ‘Michael’. O filme é sobre um pedófilo que mantém um menino aprisionado no porão. Numa cena, ele abre o zíper, tira o pênis e, com uma faca na mão, pergunta ao garoto o que quer que enterre nele – a faca ou o pinto? A faca, o guri responde. É a melhor cena do filme, cuja frieza me desconcertou. De perto ninguém é normal, sei, mas acho que certas histórias exigem um tom, ou devem provocar alguma reação na gente. ‘Michael’ não me provocou nenhuma e encerrar com ‘Sonny’, na trilha sonora’, me pareceu meio demais. Os irmãos Dardenne contam a história de outro garoto. Rejeitado pelo pai, ‘Le Gamin au Vélo’, o menino da bicileta, liga-se a uma benfeitora, Cecile de France – é a primeira vez que Jean -Pierre e Luc recorrem a uma ‘estrela’ -, a quem agridem para ajudar o que lhe parece o pai substituto, um traficantezinho de merda. Confesso que achei o filme meia-boca, a fórmula Dardenne, mas em tom menor. Se não fosse o nome deles o filme estaria onde? Un Certain Regard, Quinzena, Semana da Crítica? Não creio que integrasse a competição. Depois dessas decepções, confesso que tive uma inesperada surpresa. ‘L’Artiste’, de Michel Hazanavicius, entrou na última hora na competição, como 20º filme. O diretor e o astro Jean Dujardin recriaram o agente OSS 117, inclusive numa aventura filmada no Brasil. Dujardin é um astro na França. O personagem tem algo do ‘Magnífico’ que Jean-Paul Belmondo interpretou para Philippe de Broca e o festival vai resgatar como parte da homenagem ao astro de Godard em ‘Acossado’. Será que foi isso que colocou ‘O Artista’ na competição? Mirando-se no exemplo de ‘Cantando na Chuva’, Hazanavicius e Dujardin contam a história de um astro do cinema mudo cuja carreira entra em declínio no cinema falado. Salvam-no seu inseparável companheiro, um cãozinho adorável, e a personagem de Bérenice Béjo, como uma stalette a quem o herói estimula a seguir em frente na carreira (e ela vira a queridinha da América). Em plena era do 3-D, ‘L’Artiste’ é mudo, em preto e branco. A trilha inclui uma belíssima homenagem ao Hitchcock de ‘Vertigo’, Um Corpo Que Cai. Alguém dirá que não é filme para concorrer à Palma de Ouro. Para mim, até agora, é o que deveria ganhar.