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Cultura » Quem é a borboleta?

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Luiz Carlos Merten

22 Maio 2007 | 14h13

CANNES – Scorsese ou Julian Schnabel? Scorsese veio hoje cumprir seu primeiro compromisso em Cannes – o lançamento da World Cinema Foundation, que pretende recuperar obras ‘negligenciadas’ de todo o mundo. O próprio Scorsese reconhece que esse conceito de ‘negligência’ é muito vago (ou amplo). Representa obras em condições tão precárias que estão ameaçadas de sumir, ou filmes que simplesmente não passam mais? A WCF me pareceu uma intenção, estética e política, mais do que outra coisa qualquer. Muitas perguntas estão sem resposta. Quem vai selecionar os filmes que precisam ser salvos, como (e onde) eles serão exibidos? A iniciativa, de qualquer maneira, é importante e o Scorsese conseguiu o apoio da George Armani e da Cartier, como empresas patrocinadoras. A mesa da coletiva era impressionante e incluía grandes nomes. Walter Salles sentou-se à esquerda de Scorsese, que ocupava o centro. Daqui a pouco, Scorsese apresenta em Cannes Classics a versão restaurada de Transes, do marroquino Ahmed Al Maanouni, e amanhã, acompanhado de Waltinho, participa da homenagem a Limite, de Mário Peixoto. O filme foi restaurado digitalmente e a WCF está dando as condições para que uma nova matriz de cinema seja feita e o filme possa voltar, como película, a todos os circuitos que, no Brasil e no mundo, quiserem (re)descobrir esse filme mítico. Amanhã quero ver Limite e, na quinta, pretendo assistir à aula de cinema do Scorsese para relatar mais para vocês. Quem quiser maiores informações sobre a World Cinema Foundation já tem um endereço para pesquisar – www.wcf.org. A interrogação no começo do post deve-se ao seguinte. Hoje pela manhã, antes do filme de Tarantino, assisti a Le Scaphandre et le Papillon, de Julian Schnabel. Gostei bastante, mas mesmo sendo manteiga-derretida, não chorei como boa parte da crítica brasileira. A história do jornalista francês Jean Dominique Baudy tem elementos que podem lembrar Mar Adentro. Ele sofreu um derrame e ficou paralítico, privado da fala e dos movimentos. Parecido não é igual. Schnabel fez outra coisa, para mim melhor que o filme de Alejandro Amenábar, do qual não gosto muito. A Europa Filmes vai lançar O Escafandro e a Borboleta nos cinemas brasileiros. Vamos ter tempo e espaço para falar do filme e seu diretor, que me supreendeu, mas quero dizer que Mathieu Amalric já é meu candidato a melhor ator. O trabalho dele é genial, mais até nos flasb-backs do que nos momentos pós-ataque, quando o personagem fica prisioneiro daquele corpo que não corresponde aos seus sinais. Dou-me conta agora de que a metáfora da borboleta cabe nos dois casos. Scorsese tenta tirar filmes novos de peças de museu para preservar a memória e a identidade de diferentes culturas; Schnabel também faz voar a imaginação deste homem que, de certa forma, vai afundando diante de nossos olhos.