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Cultura » Quebra de Confiança? Não. O preço de uma verdade

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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2007 | 15h27

Já que falei de Bobby quero falar também de Quebra de Confiança, outra estréia de hoje. Gostei bem mais do filme de Billy Ray. Já havia visto, desse diretor, O Preço de uma Verdade, que foi lançado em DVD. (Se vocês me disserem que estreou nos cinemas vou ficar muito surpreso.) A história tem tudo a ver com a de Quebra de Confiança. Lá, Ray conta a história daquele repórter da revista The New Republic – Hayden Christensen era quem fazia o papel – que ficou famoso por suas matérias de impacto, mas elas eram forjadas. Aqui, o ponto de partida é o desmascaramento de um agente duplo que, por mais de 20 anos, passou informações confidenciais para os soviéticos, beneficiando-se do posto que ocupava no FBI – justamente o de analista de assuntos da URSS no birô. O filme começa com a prisão de Robert Hanssen. Um letreiro – ‘Meses antes’ – mostra como foi montado o esquema para desmascará-lo. Ele envolve um jovem aspirante a agente, chamado O’Neill. É interpretado por Ryan Philippe. (Hanssen é interpretado por Chris Cooper). O’Neill morde a isca de espionar Hanssen sob a alegação de que ele é viciado em pornografia na internet e isso poderá causar constangimentos ao governo, se for descoberto. No processo, O’Neill descobre a verdade e vive um dilema. Ele é católico, como Hanssen. Após ganhar a confiança do superior, precisará traí-lo, como Hanssen traiu seu país. A quebra de confiança vira um problema ético. Achei o filme muito interessante (e muito bem realizado). Tem suspense, ação, mas a ação que interessa é a interior. Por que Hanssen trai seu país? A resposta não é muito clara. Existem indícios para nós, espectadores, analisarmos. Como no caso de Hayden Christensen, no filme anterior, não é pelo dinheiro. É mais pelo narcisismo de ser o melhor, de conseguir enganar a todo mundo num mundo que vive da imagem. A chave de Quebra de Confiança é que O’Neill, lá pelas tantas, teme estar se transformando numa fraude, como o homem que está ajudando a desmascarar. Há questões mais intrigantes ainda – por que fazer um filmes desses, agora? Billy Ray poderia ter feito um thriller paranóico e patriótico. Ele resiste à tentação, atraído, como em O Preço de Uma Verdade, pela idéia de filmar um personagens que cria uma forma de fraudar os outros e termina fraudando a si próprio. Na verdade, acho que Billy Ray rrealiza uma viagem parecida com a de Arthur Penn, quando fez um Lance no Escuro, com Gene Hackman, em 1975. Foram feitos, na época, filmes que abordavam diretamente o escândalo de Watergate. O de Penn, que não tratava diretamente do assunto, é o melhor e o que mais define, para mim, o período. Simplesmente porque Penn filmou a quebra de confiança, o clima de traição que emanava da Casa Branca e contaminava o país. É o que ocorre aqui e eu seria desonesto, comigo e com vocês, se dissesse que acho que não tem nada a ver com Bush filho na Casa Branca. Tem tudo! O’Neill/Ryan Philippe paga um preço pela descoberta da verdade. O verdadeiro tema do filme é ele, sua luta. Achei muito bom. Espero que vocês gostem, também.