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Cultura » Que tudo se realize/no ano que vai nascer

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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2008 | 20h44

Há uma tristeza que me intriga no cinema de Christophe Honoré. Está ligada, talvez, ao sentimento de morte que percorre seus filmes ou à certeza da finitude do amor que consome seus personagens, mas é uma coisa que vai um pouco além. Cheguei a ser indiscreto e, nas duas vezes em que entrevistei Clotilde Hesme, sua atriz-fetiche (como Louis Garrel é o ator-fetiche), tentei sugerir que talvez tivesse algo a ver com opção sexual e que aquele gayzinho que ‘fisgava’ o belo Louis em ‘Canções de Amor’ não era um acidente fortuito. Ela me disse que não era por aí, mas o ‘amor que não ousa dizer seu nome’ volta em ‘A Bela Junie’, embora a relação forte seja hetero, entre Louis Garrel e a bela Léa Seydoux, que me fez lembrar – pelos olhos, principalmente – uma jovem Anna Karina. Fiquei siderado pelo filme, com sua personagem obcecada pela certeza de que o amor que Garrel lhe devota não é eterno e que não aceita a fórmula de Vinicius (é eterno enquanto dura). Essa mulher prefere não amar a arriscar-se a perder seu amor. Achei o filme interessantíssimo e creio que ele ilumina um pouco a tal tristeza a que me referia no começo do post. Honoré ama a nouvelle vague. Num certo sentido, é um trânsfuga do movimento que revolucionou o cinema francês por volta de 1960, só que consciente de estar chegando com 50 anos de atraso. Sua tristeza bem pode vir daí, dessa certeza de que, por maior que seja sua vontade de emular Godard e Truffaut, não é possível filmar como eles, naquela época. E tem mais – não deve ser mera coincidência que ‘A Bela Junie’ seja livremente adaptado de ‘A Princesa de Clèves’. Exatamente em 1960, o romance de Madame de Layaette, considerado um marco do realismo pdicológico na literatura francesa, foi adaptado por Jean Delannoy, com roteiro de Jean Cocteau. Em plena explosão da nouvelle vague, foi uma bofetada em seus jovens talentos que justamente Delannoy, um daqueles diretores de qualidade que Truffaut detestava, tenha recebido o Grand Prix Téchnique du Cinéma Français naquele ano. ‘A Princesa de Clèves’, revisitada por Delannoy, era um monumento de gélido academicismo (mas com uma Marina Vlady deslumbrante). Honoré filma agora como Truffaut ou Godard teriam adaptado a história. Confesso que me havia esquecido de ‘Canções de Amor’ quando fiz minha matéria de melhores do ano no ‘Caderno 2’. Havia-me esquecido também de Chabrol (‘La Fille Coupée en Deux’) e Abdelatif Kechiche (‘O Segredo do Grão’), mas lamento especialmente por Honoré. Vou parar com o blog. Preciso tomar banho, me arrumar, sair. Só doido para ficar postando em pleno réveillon. Mas vou rearranjar minha lista. Vou radicalizar os meus favoritos de cinema de invenção em 2008. Permanecem ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas’, ‘Não Estou Lá’ e ‘Rebobine, por Favor’. Entra ‘Canções de Amor’ – por um dia, poderia ser ‘A Bela Junie’, que estréia amanhã – em 2009!). Melhora de posição ‘Falsa Loira’, de Carlos Reichenbach, que tenho de admitir, para mim mesmo, que foi o nacional que mais me encantou no ano que está terminando. Cinco filmes de invenção e um que se caracteriza pelo classicismo narrativo, ‘Desejo e Reparação’. Desta vez, nenhuma animação – mas haveria uma, se ‘Bolt – Supercão’ também não estreasse amanhã, ou seja, no ano que vem. Seis filmes, apenas. Amanhã, falo de cenas e interpretações que ficaram comigo. E um grande Novo Ano para todos nós, com alegria, saúde e muitos bons filmes pela frente!