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Luiz Carlos Merten

08 Fevereiro 2009 | 11h28

BERLIM – Em pouco mais de 12 horas, a Berlinale mostrou quanto a seleção de um grande festival pode ser esquizofrênica. Na noite de ontem, ocorreu a sessão de imprensa de ‘Rage’, de Sally Potter, diretora inglesa ‘chic’ e habituée de grandes festivais internacionais. Seu currículo ostenta ‘Orlando’, adaptado do livro de Virginia Woolf, e ‘Tango Lessons’. Em geral, Sally assina filmes pretensiosos, mas desta vez ela se superou. ‘Rage’ é o ‘Jogo de Cena’ da diretora inglesa. Um jogo duro que não deixa de ter aspectos curiosos. Sally fez um falso documentário sobre o mundo fashion, em torno de um desfile de moda, supostamente passado em Nova York, mas ela não mostra a cidade nem o tal desfile. Os personagens falam diretamente para a câmera, entrevistados por um certo Michelangelo – que não aparece – para o making of do evento. Judi Dench, Steve Buscemi e Jude Law são alguns dos atores, mas quem faz sensação é o último, irreconhecivel num papel de travesti. São a crítica de moda, o fotógrafo, o estilista, a ‘celebridade’. Cada um fala do desfile – e da vida – de seu ângulo particular. De repente, ouvem-se tiros. Ocorre um crime, que permanece fora de quadro, mas repercute nos entrevistados que, literalmente, se desmontam frente à câmera. Sally Potter quis fazer um filme sobre tudo – a vida, a arte, a cultura de massa, a sociedade da imagem, o mundo globalizado etc. Passada a curiosidade inicial, o conceito fixa seus limites e a monotonia – dramática e visual – se estabelece. Tudo vira nada. Hoje pela manhã, pelo contrário, tivemos um exemplo de como o nada pode virar tudo. Aguardem o próximo post.