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Que que é isso? Ou; no lixo do inferno, com Gainsbourg

Luiz Carlos Merten

12 Janeiro 2009 | 11h52

Meu colega Jotabê Medeiros chegou hoje ao jornal disposto a ‘inticar’ comigo, ou seja, a me provocar. Disse que foi ver ‘A Bela Junie’ e definiu o novo filme de Christophe Honoré como um ‘Malhação’ existencialista, feito por um repetidor da nouvelle vague. Registrado a opinião do Jota, só para o caso de alguém querer polemizar – eu adorei o filme do Honoré, mas, enfim, o que esperar de um cara como eu, que não gosta dos Coen? -, quero dizer que fui ver ontem ‘Paixão Selvagem’, o ‘Je t’Aime, Moi non Plus’, de Serge Gainsbourg, com Jane Birkin. Esqueça tudo, bem, quase tudo o que havia escrito ontem sobre o filme. Na minha lembrança, cheguei a escrever, era uma espécie de ‘Um Homem, Uma Mulher’ anti-naturalista, aplicando o estilo publicitário soft de Claude Lelouch a uma história barra-pesada. Não é nada disso. ‘Je t’Aime’ começa no lixo e prossegue como uma estética sórdida, para dizer-se o mínimo. O fotógrafo Willy Kurant é anti-publicitário por excelência. Seus amarelos estão mais para o ‘manga’ de Cláudio Assis que, aliás, deve ter visto o filme de Serge Gainsbourg, ou será que não?
Vou abrir parágrafo. Não creio que seja um bom filme ou um filme que se possa recomendar sem correr o risco de ser taxado como ‘tarado’, mas é muito característico de uma época. E, depois, fazer na França um filme de contracultura, como se fosse um cara do Meio-Oeste dos EUA, era no mínimo uma proposta original em 1970 e poucos. A canção que dá título ao filme havia sido proibida pela censura do regime militar, no Brasil, como atentatória à moral e aos bons costumes. Serge Gainsbourg, cantor e compositor, e sua mulher, Jane Birkin, mais gemiam do que cantavam, como se estivessem fazendo sexo. No filme, Joe Dalessandro, ícone gay – mas o ator que tinha a cara da Factory de Andy Warhol e filmou com Paul Morriswey detestava ser definido assim -, faz um caminhoneiro homossexual que vive de transportar lixo. Ele tem um parceiro, no trabalho e no sexo. Chegam a esse fim de mundo e ele se envolve com garçonete andrógina, interpretada por Jane Birkin.
Numa cena, Dalessandro a leva para ver um esporte violento entre mulheres. Elas se arrebentam na arena. Jane pergunta – mas são mulheres? Tanto quanto você é homem, é a resposta dele. Mais tarde, Dalessandro a leva a um motel, mas não consegue consumar o sexo. O negócio dele é homem, sexo anal. Jane, apaixonada, diz que é homem. Seguem-se – perdoem-me o que a muitos parecerá grosseria – varias tentativas de sexo anal. Jane grita feito uma condenada e eles são expulsos de todos os hotéis vagabundos aonde vão. O sexo termina ocorrendo na trazeira do caminhão de lixo, ao ar livre.
Em outra cena, Dalessandro explica a Jane o que é o amor pédé. Ela se ilude e pensa que ele, apesar de tudo, gosta dela. Quando seu parceiro tenta sufocar a garota, Dalessandro… Veja, mas saiba que o filme não é só transgressor. É um dos filmes mais marginais que já vi. Tive a sensação, lá pelas tantas, de que Ang Lee copiou alguma coisa em ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, só que o diretor chinês romantizou um pouco, a história da solidão, coisa e tal, enquanto Gainsbourg rejeita todo romantismo e acha que só o sórdido, o lixo das cidades, o vômito dos homens pode representar o mundo, que identifica com o Styx, o rio do inferno da mitologia grega, que fazia a ligação dos vivos com o Hades, a terra dos mortos.
Serge Gainsbourg previra a própria morte numa entrevista que deu a ‘Libération’, em novembro de 1981. Errou por quatro meses. Disse que ia morrer em 1990, numa noite fria de outubro. Morreu, do coração, em março de 1991. O mito só cresceu depois, mas ele já era um personagem controvertido – ‘maldito’. Queimava dinheiro na TV, ofendeu os patriotas tocando a ‘Marseillese’ sob o efeito da maconha, em ritmo de reggae. Assumia a aura de misógino – várias mulheres fazem strip-teases constrangedores em ‘Paixão Selvagem’. O plano do sexo anal, quando a câmera vem por baixo de Jane Birkin, é bem o que ser pode definir como ‘ultraje’. Você pode até detestar, mas provocações como esta não se fazem mais. Serge Gainsbourg fez outros filmes. Um deles, ‘Charlotte Forever’, com a filha Charlotte Gainsbourg – atriz de ‘Félix e e Lola’ -, sugere uma relação incestuosa entre ambos. Jean Genet, quem diria, era aprendiz perto das provocações profissionais de Serge Gainsbourg.