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Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2010 | 16h24

Fui jantar ontem com meus amigos Dib Carneiro, João Sampaio e Regina Cavalcanti, mas antes disso dei uma passadinha no restaurante em que Schlomo Azaria realizava a cerimônia de entrega dos prêmios aos vencedores do Festival do Cinema Brasileiro de Israel. Lá estavam Andréa Cals – que me cantara a bola de que eu ficaria surpreso com a premiação da Première Brasil, no Festival do Rio, e eu fiquei, de verdade –, Sérgio Rezende, Denise Weinberg, José Joffily e Sérgio Bianchi. Tomei uma taça de vinho, brindei e fui embora. Sérgio, o Rezende, me disse que ‘Salve Geral’, além do prêmio de melhor filme em Israel, também foi o melhor em Londres e Miami, acrescentando que a crítica em São Paulo politizou demais seu trabalho e ele terminou não sendo visto como a tragédia familiar que havia planejado (e executado). No exterior, disse Sérgio Rezende, sua intenção foi percebida com mais clareza, o que fica como tópico para discussão. O outro Sérgio, Bianchi, é meu inimigo cordial. Sabe que não gosto de seus filmes depois do ‘Cronicamente Inviável’ e me anunciou que trabalha atualmente em outro de que também não vou gostar. Gostaria, sinceramente, que estivesse errado, mas, para isso, reconheço que ambos teríamos de mudar. Mas o Sérgio também disse uma coisa que me exponho submetendo à apreciação de vocês. Ele disse que faz medição e pode provar, cientificamente, que dedico mais tempo e espaço – 70% contra 30% – ao cinema estrangeiro, leia-se Hollywood. Não estou querendo me defender, porque, acima de tudo, sou um jornalista de cinema e, como tal, mesmo ao refletir, não deixo de o fazer sobre o mundo – o mercado – ao redor. Só acho que, mesmo ao falar do mainstream, não boicoto o cinema brasileiro ou marginal que, no País ou fora dele, me atrai. Por exemplo, amei/amo ‘A Origem’ e ‘Machete’, estou feliz da vida com o sucesso de ‘Tropa 2’ e ‘Nosso Lar’ (e gosto mais do primeiro, ou gosto só do primeiro), mas se vocês me perguntarem quais os ‘meus’ melhores filmes brasileiros do ano vou ter de escolher entre ‘Estrada para Ythaca’ ou ‘A Última Estrada da Praia’, ou entre ‘Luz nas Trevas’ e ‘O Senhor do Labirinto’, que ainda não estrearam, mas estarão na Mostra (o ‘Ythaca’, para dizer a verdade, não tenho certeza). Bianchi me acusa, mas sem briga, de fazer escolhas ‘erradas’, o que pode até ser, pois não posso ter a pretensão de acertar sempre. Agora mesmo, na Mostra, estou jogando minhas fichas em ‘Carlos’, de Olivier Assayas, e ‘My Joy’, Minha Alegria, de Sergei Loznitsa. Quanta gente não vai me contestar, chamar de louco? O que eu me recuso, e recuso mesmo, é achar que tenho de olhar o cinema, incluído o brasileiro, apostando numa só via. É a última coisa que me passa pela cabeça. Se eu não puder gostar, simultaneamente, de ‘A Origem’, ‘Toy Story 3’ e ‘Estrada para Ythaca’, que graça tem?

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