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Cultura » Que doideira, os Stones!

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Luiz Carlos Merten

07 Fevereiro 2008 | 15h49

BERLIM – Nunca vi nada parecido aqui em Berlim. Os Rolling Stones provocaram um tal frenesi que eu quase terminei protagonizando um caso internacional. Estamos aqui na Europa tres horas na frente do Brasil. Uma e meia da tarde eu redigia meu texto para a edicao de amanha do Caderno 2 – o fechamento do jornal eh as 2 e meia – quando entram na sala agentes da seguranca e me dizem para fechar o computador em um minuto porque o predio terah de ser evacuado para a vistoria definitiva da seguranca antes da exibicao de `Shine a Light`. Disse que tinha um horario a cumprir e o cara nao ligou a minima, foi pegando as minhas coisas como quem diz `problema seu!’ Baixou o meu lado gaucho e eu fui logo empurrando o cara e dizendo que dali nao saia. Vieram mais segurancas, todo mundo querendo me expulsar e eu atado no computador, digitando ferozmente para ver se concluia meu texto. Foi um bom estresse para iniciar o 58.o Festival de Berlim. Volto agora ao filme. Havia tanta gente para ver ‘Shine a Light’ que a sessao lotou uma hora antes. Foi preciso abrir outra sala, que tambem lotou. Quando terimnou a projecao da segunda, a sala de coletivas jah estava lotada (e interditada). Nunca vi tanta gente brigando, empurrando, xingando. Adorei o que disse o Scorsese. Quando terminou `Os Infiltrados`, ele estava tao confuso com o filme que tinha feito – e que lhe daria o Oscar -, que embarcou no projeto do filme dos Rolling Stones soh para se livrar do `Departed’. Muitos coleguinhas acharam que Scorsese fez um show filmado, e soh. Keith Richards discorda. Diz que eh um filme de Scorsese. A ideia do diretor era captar a energia de uma performance ao vivo. Muitas cameras, edicao (montagem) nervosa. Logo no come;o, no quarto do hotel, Mick Jagger cantarola `Deem-me champanhe, quando estou com sede`. Mais tarde, `Champagne and Refreash` foi o numero mais eletrizante, um duelo/dialogo de guitarras em que Keith Richards arrasou com um cara que eu nem conhecia, mas achei genio, Buddy Guy. O filme eh um tributo a energia de Mick Gagger e a longevidade dos Stones. Bem no comeco da carreira, numa entrevista que hoje parece divertida, Mick nao consegue explkicar como os Stones jah estao hah dois anos na estrada. Ele soh esperas que a banda dure mais um ano. Estah durando mais de 40! Em 1972, um apresentador da TV americano se impressionava com a vitalidade de Mick Jagger no palco e lhe perguntava se ele conseguia se imaginar fazendo aquilo dali a 30 anos. Mick diz que sim. Corte para ele, sexagenario, pulando, requebrando, cantando. O cara eh um monstro! Acho que este tributo a longevidade dos Stones eh uma forma de Scorsese refletir sobre ele proprio, hah 30 anos, quando fez `The Big Waltz` (com The Band) e hoje. A permanencia da arte. O que o tempo nos dah. O tempo eh fundamental em `Shine a Light`. Um jornalista pediu a Mick Jagger que comparasse Jean-Luc Godard, com quem fez `One Plus One`, e Scorsese. Ele citou justamente o fator tempo. O filme de Godard eh sobre o tempo de criacao de um classico dos Stones, `Sympathy for the Devil`. `Shine a Light` eh sobre um show que revisita/condensa uma carreira inteira. Esqueco-me de dizer. O show em Nova York, no outono de 2006, foi uma iniciativa da Bill Clinton Foundation. Aparecem o ex-presidente, Hilary e a mae dele, Dorothy, que se atrasa, o que leva a producao a segurar o show. Quando ela chega, Keith Richards dah um show de ironia – `Hi Dorothy, que bom que voce veio!’ Clinton faz a apresentacao e lembra que, em 2001, em Los Angeles, os Stones jah participaram de outro show de sua fundacao, na epoca para angariar fundos de pesquisa para as condicoes ambientais. O rock sobre Berlim. Mas com politica, como o festival gosta.