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Luiz Carlos Merten

11 Setembro 2007 | 17h00

Completam-se hoje seis anos do ataque às torres gêmeas e 34 da deposição de Salvador Allende, no Chile. Não estou querendo mensurar as coisas, nem nivelar, embora Ken Loach tenha justamente se lembrado daquele outro 11 de setembro, o de 1973, no filme que reuniu diretores de todo o mundo, sobre o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Já contei para vocês que estive em Santiago em junho/julho de 1973. Via o sonho socialista da Unidade Popular se esfacelando, mas amigos brasileiros radicados no Chile diziam que não – que o povo ia resistir com o presidente, aquelas fantasias que foram soterradas juinto com os escombros do bombardeio do Palácio de La Moneda. Allende morreu naquele 11 de setembro. Voltei ao Chile no ano passado e neste. Encontrei o país sob a presidência de uma mulher, e de esquerda. Em frente de La Moneda, há uma estátua de corpo inteiro de Allende, olhando para a frente, o passo decidido e a frase dele de que, mais cedo ou mais tarde, mais cedo do que tarde, o Chile evoluirá no rumo do socialismo. Pode ser só um sonho, ou um delírio no mundo globalizado, mas a repressão de Pinochet não conseguiu extirpar Allende, como queria, da história chilena. Lá está ele, imortalizado na pedra. Filmes como Machuca, de Andrés Wood, fazem a revisão da ditadura – para não falar em Missing, o Desaparecido, de Costa-Gavras, que tem a cena do cavalo branco, símbolo de liberdade, perseguido por aqueles milicos na noite de Santiago, uma imagem de irracionalidade que define o que foram os anos Pinochet. Conceda-se que o choque econômico que Pinochet levou a cabo foi importante para a estabilização econômica do Chile, mas isso não o absolve da violência política nem das acusações de corrupção que pesam sobre ele e sua família. O Chile permanece um país dividido, mas a restauração da memória de Allende é um passo gigantesco à frente. Em Nova York, fui olhar, da distância que era possível, a cratera aberta no lugar onde antes havia o World Trade Center. É muito forte. Fiquei com peito oprimido. Errei feio. Havia dito, no calor da hora, que a vingança de Hollywood seria terrível e Rocky e Rambo iriam ressuscitar para combater (e vencer) Osama Bin Laden. Hollywood respondeu à crise com uma radicalização no sentido inverso ao que havia previsto. George W. Bush pode ter se reelegido com apoio da maioria silenciosa do Meio-Oeste, mas de Spielberg, com a admirável trilogia formada por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, até De Palma, premiado em Veneza com seu novo filme sobre (e contra) a Guerra do Iraque, tem havido uma contestação muito firme ao atual poder encastelado na Casa Branca. Michael Moore mostrou toda a sujeira da era Bush em Fahrenheit 11 de Setembro. A ligação de Bush com a família Bin Laden, fala do assessor do presidente, pedindo apoio de empresários para a guerra e prometendo que a reconstrução do Iraque seria lucrativa para todos – e ele nunca diascursava contra a ditadura de Saddam Hussein; falava em bilhões de dólares para os que apoiassem o presidente. Não acho que isso seja coisa de que alguém possa se orgulhar. É uma simples questão de decência, de ética. O mundo piorou muito depois do 11 de setembro, dos dois 11 de setembro. Existe esperança? Sempre existe, o Chile que o diga. Em ambos os casos, o cinema tem ajudado no processo de compreensão da história. Que continue sempre assim.

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