Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Que bom te ver viva brava gente brasileira

Cultura

Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2009 | 14h20

Na correria dos filmes e entrevistas, perdi o lançamento, durante o Festival do Rio, da caixa com os cinco filmes de Lúcia Murat, que tem como título justamente ‘Cinco Vezes Lúcia Murat’. Havia encontrado a Lúcia no Odeon, durante uma das sessões da Première Brasil, e foi aí que soube desse lançamento, que recupera a obra ‘completa’ de uma das mais interessantes diretoras brasileiras. Coloquei o ‘completa’ entre aspetas justamente por esperar que Lúcia ainda faça muitos filmes, transformando esses cinco em uma parcela ‘incompleta’ de sua obra. Tenho lá minhas preferências – ‘Quase Dois Irmãos’ e ‘Brava Gente Brasileira’ -, mas é uma autora que respeito na íntegra, mwesmo quando seus filmes não me parecem 100% logrados. Imagino, como é de praxe, que os DVDs possam ser comprados isoladamente, mas a caixa é legal. Imagino também que o crítico José Carlos Avellar não vá se incomodar se eu transcrever o texto dele na contracapa da caixa. Acho que pode aumentar o interesse do público, mas na verdade a transcrição é porque gostei muito desse texto (e ele diz coisas que eu próprio gostaria de ter escrito sobre o cinema de Lúcia Murat).
(Como nota para ser lida entre parênteses, para ser lida como frase ou período entre parênteses no meio de um texto, porque ele é o que de fato importa – e aqui o que importa de verdade são os filmes – como sugestão, possível porta de entrada para eles, digamos; a montagem (arbitrária, não planejada, sequer estimulada, por qualquer dos filmes) do título do primeiro longa de Lúcia Murat com o título de seu terceiro filme – assim: ‘que bom te ver viva brava gente brasileira’ – produz uma imagem que traz a primeiro plano um ponto essencial das diferentes questões e das diferentes formas narrativas aqui reunidas; são histórias de sobreviventes, narradas por uma sobrevivente. Os filmes não se reduzem a isso, mas partem daí, de pensar a nossa condição como a de um sobrevivente. A jornalista em Brasília, a índia kadiweu, a ex-presa política, a jovem que dança na Maré, o político e o favelado na Ilha Grande, o cartógradfo português entere os guaicurus de 1778 e a jovem de classe média na favela de 2004, todos eles sobrevivem a um desastre de proporções impossíveis de determinar, um desastre que lhes foi imposto como condição de vida. (Abro eu aqui um parêntese – Avellar escreve que ‘lhes’ foi imposto, mas eu digo que ‘nos’ foi imposto. Volto ao texto dele.) A sobrevivência se dá num espaço e tempo fechados como um parênteses. O cinema, aqui, é parte do trabalho de todo dia para romper o parênteses – uma razão a mais para saltar logo deste aqui, já muito longo, e ir direto ao que interessa e que está fora dele:) os filmes.
Gostei, Avellar. Os cinco filmes, só para lembrar, são ‘Que Bom Te Ver Viva’, ‘Doces Poderes’, ‘Brava Gente Brasileira’, ‘Qusase Dois Irmãos’ e ‘Maré, Nossa História de Amor’.