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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2011 | 11h18

Em Montevidéu, onde fui com meu amigo Dib Carneiro para assistir, na sexta, à última representação da peça dele, ‘Salmo 91’, saímos bastante com o elenco local, um pessoal ótimo (e muito talentoso). Andamos bastante pela Ciudad Vieja e fomos a um restaurante italiano que me saiu um regalo. A comida era boa, o vinho (o Tannat Reserva), uma delícia e eu ainda fui brindado com o plus a mais de todos aqueles cartazes de filmes italianos. ‘Rocco e i Suoi Fratelli’, ‘Rocco y Sus Hermanos’ (dois cartazes), ‘Viaje en Italia’, ‘La Provinciale’, ‘Le Quatre Giornate di Napoli’ etc. Na verdade, o que me interessa de falar é do último. Lamentei, sinceramente, não ter podido ir aos filmes restaurados da Semana Pirelli, nem tanto os de Mario Monicelli – um diretor, afinal de contas, mais do que revisitado, incluindo em DVD –, mas principalmente os demais. E eu morro de vontade que alguém (a Pirelli?) nos traga todo Pietro Germi, um autor que clama por revisão. ‘I Magliari’, Renúncia de Um Trapaceiro, o primeiro Francesco Rosi solo – ele já havia codirigido “Kean’ com Vittorio Gasman’, tinha um interesse particular para mim. Ah, não, ‘’Renúncia’ foi o segundo solo de Rosi, porque ele havia feito antes ‘A Provocação’, La Sfida, com José Suarez e a deusa Rosanna Schiaffino, sobre a Camorra. Confesso que tenho esse carinho especial pelo Rosi da primeira hora, e por ‘I Magliari’, que tem no elenco Belinda Lee. Esses ingleses hoje me perseguem. Belinda Lee! Ela foi a Messalina de Vittorio Cottafavi e fez filmes de jovens (na época) autores que eu amava, como Rosi e Florestano Vancini (‘La Lunga Notte del 43’, A Noite do Massacre). Belinda era linda (o nome não nega), mas P.F. Gastal, no ‘Correio do Povo’ e na ‘Folha da Tarde’ (como Calvero), não a perdoava. Dizia que era má atriz. Talvez fosse, mas trabalhou com todos esses bons diretores antes de morrer, prematuramente, no começo dos anos 1960, num acidente de carro (acho que estava com Gualtiero Jacopetti, mas não tenho certeza). Feito o intervalo, volto a Montevidéu e aos cartazes de filmes italianos, naquele restaurante. Devia ter, sei lá, 18 anos quando vi ‘Le Quatre Giornate di Napoli’ e o filme permanece comigo, quase 50 anos depois. Nos cinemas brasileiros, chamou-se ‘Quatro Dias de Rebelião’, evocando os quatro dias em que o povo de Nápoles se insurgiu contra os ocupantes nazistas e as ruas da cidade viraram cenários de uma verdadeira guerra ‘civil’. Por volta de 1960, o cinema italiano estava mudando, mas houve aquela erupção tardia do neorrealismo. Vittorio De Sica fez ‘O Teto’ e voltou aos temas da 2ª Guerra com ‘Duas Mulheres’. O próprio De Sica foi o Generale della Rovere de ‘De Crápula a Herói’, de Roberto Rossellini – de quem Ruggero Deodato foi assistente – e a 2ª Guerra inspirou uma leva de filmes, incluindo ‘Verão Violento’, de Valerio Zurlini, em chave intimista, e o citado de Vancini, ‘A Noite do Massacre’. ‘Quatro Dias’ increvia-se num movimento amplo, mas sua originalidade estava em buscar o enfoque revolucionário – o povo no poder – numa década que iria culminar com Maio de 68, o ano que nunca termina. Mesclando personagens imaginários no evento real, Loy, com a cumplicidade da população de Nápoles, fez um filme que eu adoraria rever. O 28 de setembro de 1943 deflagrou a guerra dentro da guerra. Até onde me lembro, o filme é intenso, lírico, violento. A Versátil ou a Lume bem poderiam nos resgatar essa preciosidade.