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Luiz Carlos Merten

17 Setembro 2009 | 19h17

Meu dia ontem foi muito corrido. Pela manhã, tinha matéria para enviar para o ‘Caderno 2’ e, na sequência, mediei o debate do Curta Santos. Almocei e peguei a estrada para voltar para São Paulo, mas terminei chegando só no fim da tarde e logo em seguida já estava no Sesc Pinheiros, para ver a última apresentação de Mademoiselle Huppert. ‘Quartett!’ Muita gente me perguntou se eu não havia errado ao chamá-la de ‘mademoiselle’. Quem me instruiu, sorry, foi ninguém menos do que Jeanne Moreau. Perguntei-lhe, na única vez que a entrevistei – espero repetir a dose no Festival do Rio -, como deveria chamá-la. Madame? Ela me disse que uma atriz francesa pode ter 100 anos, mas será sempre ‘mademoiselle’. Havia visto o texto de Heiner Müller na versão com Beth Goulart, no Centro Cultural Banco do Brasil. Não havia gostado nem um pouco – do texto nem da montagem. Estava ontem na peça do Sesc Pinheiros acompanhado de Gabriel Villela, Cláudio Fontana e Dib Carneiro Neto. Gabriel montou ‘Quartett’ duas vezes – em Portugal e no Brasil. Ele conhece o texto de cor. Recita as falas de cada personagem. Era curioso vê-lo dizendo em português, baixinho, o que Isabelle recitava em francês. Achei o espetáculo deslumbrante. Bob Wilson – a quem mademoiselle, como boa francesa, se refere como Bób Wílsôn – trabalha numa confluência do teatro com o cinema. O cara é fera como iluminador e cria uma montagem plena de referências pictóricas e musicais. Resnais está ali o tempo todo, não apenas porque Bob Wilson não deixa de trabalhar o ator como ‘escultura’, como Alain fazia em ‘O Ano Passado em Marienbad’, mas também porque há ali uma desconstrução do texto e uma ampliação do tempo, por meio da repetição de certas falas. Gostei demais. A própria Isabelle Huppert dissera, na entrevista que me deu, que Bob Wilson é um formalista que chega à essência do texto por meio da experimentação da forma. O texto é sobre a batalha dos sexos, pegando carona na concepção do amor como estratégia militar que Choderlos de Laclos desenvolveu em ‘As Ligações Perigosas’, que teve versões assinadas por Roger Vadim e Stephen Frears (para não falar naquela versão teen com Sarah Michelle Gellar e Reese Whiterspoon). Na rubrica do autor, isso foi Gabriel Villela quem me explicou, Muller diz que os personagens são o último homem e a última mulher e a ação pode (ou deve) ser situada num bunker, durante a 2ª Guerra. Nunca vi tantos atores e diretores numa plateia de teatro. Não digo que estivessem lá para aprender, embora não me surpreenda se vir alguma coisa daquilo em próximas montagens. (Alguma coisa, na verdade, seja na concepção cênica ou na maneira de trabalhar o cenário,como a lua negra, me lembrou o ‘Calígula’ de Gabriel Villela, montado sobre o texto de Albert Camus, com a diferença de que a montagem do ‘barroco’ Gabriel era em preto e branco e a de Bob Wilson é uma explosão de cores, através da luz). Talvez exagere, mas não seria eu se não exagerasse – o Sesc Pinheiros foi a Meca e a Medina do teatro, ontem à noite. E vou acrescentar, só como provocação – o extremo experimentalismo de Bob Wilson precisa de recursos técnicos de teatro ‘comercial’, de ‘teatrão’. Mal comparando, volto ao cinema. Como o ‘Batman Cavaleiro das Trevas’ de Christopher Nolan. Que coisa!