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Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2007 | 10h16

Entrevistei ontem Beth Formaggini, diretora de ‘Memória para Uso Diário’, por conta de seu filme que terá mais uma exibição na segunda-feira, na Mostra. Beth trabalhou muito tempo com Eduardo Coutinho, o que já faz dela uma pessoa especial. Acho bonito seu documentário centrado nesta mulher que, há 31 anos, busca pelo marido que desapareceu nos porões da ditadura militar. O filme trata de memória e esquecimento, dois temas que remetem a Resnais e a seu ‘Nuit et Brouillard’, curta documentário dos anos 50, inspirado na experiência terrível do Holocausto. Resnais não foi uma referência consciente. Beth não disse ‘vou fazer um filme como aquele’. Mas Resnais, com certeza, é uma influência que está lá no fundo do seu inconsciente. Coutinho e Resnais – conversamos bastante sobre isso, ontem. Faço essa introdução para chegar ao que vocês poderão ler agora como uma piada. Um dos meus destaques de hoje da Mostra, na edição do ‘Caderno 2’, é ‘A Viagem do Balão Vermelho’, que Hou Hsiao Hsien realizou, com Juliette Binoche, a partir de um filme que eu amo – ‘O Balão Vermelho’, de Albert Lamorisse, 1956, que analiso no meu texto para o livro coletivo ‘A Produção Infantil para a Criança’. No caso, mais do que ‘para’ a criança, ‘O Balão Vermelho’ é ‘sobre’ a infância. Patrícia, mulher de Adhemar Oliveira, que coordena o Projeto Escola do Arteplex e do Unibanco, cultua o filme do Lamorisse tanto quanto eu. Ela até tentou adquirir uma cópia, para distribuir nos cinemas (além de utilizá-la no Projeto Escola). Patrícia trombou com a intransigência da família do cineasta, morto em 1970, que nunca quis negociar os direitos. Espero que ‘A Viagem do Balão Vermelho’, tão bonito, tão delicado, recoloque o filme de Lamorisse na roda. Mas, enfim, estava na Mostra, depois de entrevistar Beth, e alguém me pediu uma sugestão sobre o que ver. Indiquei alguns filmes e citei ‘A Viagem do Balão Vermelho’, ressaltando que passa hoje. Beth ouviu e comentou – “Rodrigo Fonseca me disse que não tem nada a ver.” Rodrigo, do ‘Globo’, que é brodaço, vive ‘inticando’ comigo, como se diz em gauchês – me provocando, para o caso de ser necessária uma tradução. Rodrigo credita nossas diferenças de opinião a uma questão ‘geracional’. Ele curte ‘À Prova de Morte’, do Tarantino, porque é ‘jovem’; eu não curto porque sou ‘velho’. Simples comme ça. Se, para elogiar ‘A Viagem do Balão Vermelho’, eu tiver de assumir que estou velhinho, bem, chegou o dia. É hoje. Vejam, e eu ainda vou arranjar alguma testemunha que tenha visto o Rodrigo chorando na sessão do filme na abertura da mostra ‘Un Certain Regard’, no Festival de Cannes, em maio!