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Quanto vale o Kikito?

Luiz Carlos Merten

19 Agosto 2007 | 12h35

PORTO ALEGRE – Achei que Deserto Feliz, de Paulo Caldas, ia ganhar a tríplice coroa de Gramado. Comentava a cerimônia na Rede Cultura com a Marla, uma apresentadora aqui de Porto. Há quatro anos que fazemos isso. Já sabia – havia participado da votação de manhã – que Deserto Feliz havia recebido o prêmio da crítica. No palco do Cine Embaixador, o Palácio dos Festivais, descobri que ganhara também o do público. Quando Paulo Caldas ganhou o Kikito de direção, mesmo não sendo um fã do filme me parecia natural que Deserto Feliz emplacasse também o prêmio máximo, mas bem que o apresentador Zé Wilker preparou a gente – ele disse que a nova fase de Gramado privilegia o cinema de autor, mais (muito mais) que o glamour do tapete vermelho. O júri radicalizou, dando o Kiklito de melhor filme a Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais, de Carlos Alberto Prates Correia. É um filme ensaístico – mais que um documentário tradicional -, no qual o diretor de Cabaret Mineiro volta-se sobre os próprios filmes e os sonhos da sua geração, formada por cinéfilos e autores mineiros que queriam fazer cinema justamente de autor, nos anos 60 e 70. Joaquim Pedro de Andrade, Andréa Tonacci, Maurício Gomes Leite, Schubert Magalhães, o próprio Carlos Prates. Castelar e Nelson Dantas é muito cifrado e teve gente que, no dia da exibição, saiu do Palácio dos Festivais se perguntando quem eram o Joaquim, o Schubert, o Maurício a que Prates se referia. Vendo aquelas imagens eu me senti jovem novamente, revi os meus sonhos, as minhas expectativas em relação à vida e ao cinema, pois é disso que trata Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais. Gostei, mas não tenho muita ilusão de que seja um filme para grandes platéias. É miúra total, para o prazer estético de poucos e, mesmo esses poucos, eu não estou tão certo assim de que gostem. Talvez pelo clima do festival e pelo desapontamento do resultado, mas houve um princípio de vaia quando foi anunciado o Kikito de Castelar e Nelson Dantas. Ouço dizer que o filme não será lançado em salas, devendo ir diretamente para DVD. José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, que fazem a seleção de Gramado, estão querendo – e conseguindo, aos poucos – mudar o perfil do festival. Estão investindo na formação de platéias. Os curtas, à tarde, eram sessões abertas e foi criado um júri de estudantes para atribuir os prêmios técnicos. Houve algum descompasso, porque para mim não ficou claro quais daqueles prêmios técnicos eram do júri oficial ou do de estudantes, mas a iniciativa foi estabelecida. Avellar e Sanz levaram Eduardo Coutinho a Gramado e ele mostrou Jogo de Cena em première absoluta. Foi o melhor filme de Gramado em 2007, mas infelizmente não concorria a prêmios. Tudo isso merece ser dito, mas tive a sensação de que o prêmio para Castelar e Nelson Dantas foi, acima de tudo, contra Deserto Feliz. Muito ainda vai se falar sobre essa premiação. Não se trata de colocar a questão em termos de filmes de autores versus os de mercado. Sandra Werneck estava no júri e sei bem que, por ela, o cinema de autor pode dialogar com o de mercado – Cazuza é de autor, ela vai jurar. Gramado, em 2007, sofreu muitas críticas pelos problemas de projeção dos filmes nas sessões oficiais. Não li, mas me contaram que, no Rio, o Globo disse que um festival que, após 35 anos, não consegue projetar seus filmes direito tem de fechar. Há uma evidente má vontade que nem é contra o Festival de Gramado, mas contra o cinema brasileiro (e latino) do qual Gramado é vitrine. Preconceitos à parte, é um problerma (real) que o festival não tenha força mercadológica. Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, um dos vencedores do ano passado, até hoje não estreou. Quanto vale o Kikito, se não ajuda no lançamento de um filme que o ostenta?