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Quando o universo conspira

Luiz Carlos Merten

03 Setembro 2014 | 10h02

Entrevistei ontem Marin Karmitz – depois eu conto por que – e foi uma conversa muito interessante com o produtor, diretor, distribuidor e exibidor francês, cujo grupo MK2 é o terceiro maior de cinema da França e o número um no mundo, quando o assunto é cinema de autor, ou de art et essai, como dizem os franceses. Brinquei com ele se era por causa do K em seu nome que ele se ligou tanto a Krszystof Kieslowski e Abbas Kiarostami, e observei que 3 K, ou KKK, não é uma boa sigla. Rimos muito, descobrimos afinidades. Disse-lhe que Rocco e Seus Irmãos, Rocco et Ses Frères, é meu filme preferido e descobri que é o dele, também (um dos, pelo menos). Marin me disse que, em São Paulo, iria me contar uma história sobre o clássico de meu amado Luchino Visconti. Disse-lhe que não aguentaria esperar pela homenagem que ele vai receber na Mostra pelos 40 anos de sua MK2 e Marin então me contou, pelo telefone. No fim dos anos 1950, como até hoje, era muito amigo de Jeanne Moreau. Um dia, ela lhe contou que havia recebido duas propostas da Itália, para filmes de Visconti e Michelangelo Antonioni. Jeanne não conhecia muito Luchino e Marin Karmitz levou-a para ver  Obsessão e La Terra Trema. Jeanne optou por Antonioni e o filme, na verdade, demorou um ano para ser rodado. Como Rocco era coprodução com a França e Visconti precisava de uma atriz francesa, escolheu Annie Girardot, que foi uma Nadia insuperável. Por mais que admire Jeanne Moreau, ela não conseguiria ser tão boa no papel. E houve uma conjunção dos astros – Annie envolveu-se loucamente com Renato Salvatori. Casaram-se, tiveram uma relação tumultuada, com traições e adultérios de ambos os lados, mas ele foi o homem de sua vida. Décadas mais tarde, Michael Haneke contratou Jeanne Moreau para o papel da mãe de Isabelle Huppert em La Pianiste. Faltando dez dias para o início da filmagem, Jeanne ligou para Marin e lhe disse que estava cancelando a participação. Não ia filmar com aquele sujeito. Karmitz lhe disse que Haneke podia ser ríspido com a equipe técnica, mas era muito afável com atores. Ela bateu pé – não! E quem a substituiu? Annie Girardot, que fez lindamente o papel, um de seus últimos, quando já começava a sofrer de Alzheimer. Adoro essas histórias, como quando Bernadette Laffont me contou que Jean-Luc Godard tinha um plano B para À Bout de Souffle. Ele queria, absolutamente, Jean Seberg para ser sua Patriciá, mas só faria Acossado com Jean-Paul Belmondo como Michel Poiccard se ela topasse, o que ocorreu. O plano B era fazer Acossado com Bernadette e Charles Aznavour. Não seria a mesma coisa, como Rocco talvez também não tivesse sido com a Moreau. A gente ouve aquelas histórias de como um conjunto de circunstâncias montou o elenco mítico de Casablanca, de Michael Curtiz. Existem histórias similares, em várias latitudes. Parafraseando Paulo Coelho em Não Pare na Pista, o universo conspira para que determinadas coisas deem certo.