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Luiz Carlos Merten

30 Dezembro 2007 | 14h22

Falei que havia assistido a ‘Quando Irmãos se Defrontam’ e esqueci-me de comentar o filme de George Englund com Marlon Brando. Sim, é com Eiji Okada, o grande ator japonês a quem Alain Resnais deu um papel inesquecível em ‘Hiroshima, Meu Amor’. Resnais tinha aquela direção ‘escultórica’ de atrizes, que atinge seu age com a Delphine Seyrig de ‘O Ano Passado em Marienbad’, uma mulher misteriosa, com aquele vestido e a gola que sugere penas, como se ela fosse um pássaro. Amo a Emmanuelle Riva de ‘Hiroshima’, e isto desde as primeiras cenas, quando ela insiste que viu tudo em Hiroshima, que os museus mostram aos turistas as imagens da bomba etc, e o Eiji Okada diz, num tom de voz que eu não sei como explicar, mas estou ouvindo, aqui, agora – ‘Tu n’as rien vu à Hiroshima’ (e ele diz ‘vu’ mesmo, não ‘vi’, o que seria a pronúncia correta). Há virilidade na presença física de Eiji Okada, como há na de Giorgio Albertazzi em ‘Marienbad’ e os dois filmes mostram homens persuasivos, que retiram do inconsciente das mulheres – ou constróem – essas histórias de amor que estão se perdendo. De volta a ‘Quando Irmãos…’, o filme pertence a uma fase da carreira de Brando, em que os críticos não davam mais nada por ele. Filmes como ‘Morituri’, ‘Sangue em Sonora’ e outros ainda piores (mas não incluiria entre eles ‘A Condessa de Hong Kong’, de Charles Chaplin) eram considerados indignos do Brando dos anos 50. Embora goste muito de ‘Caçada Humana’, de Arthur Penn, e ‘Os Pecados de Todos Nós’ (Reflections in a Golden Eye), de John Huston, isso não me impede de constatar que só no limiar dos 70, com ‘O Poderoso Chefão’ e ‘Último Tango em Paris’, de Coppola e Bertolucci, Brando conseguiu ressurgir, em alto estilo. Gostei de ter visto ‘The Ugly American’, que é o título original de ‘Quando Irmãos se Defrontam’. O filme é de 1962, pós-revolução cubana e representa uma esquerda democrática que, na época, estava preocupada com a radicalização de Fidel Castro, sim, mas também com a intransigência com que os EUA, em plena Guerra Fria, se ligavam a regimes ditadoriais para conter o avanço comunista. Achei muito interessante o final, que Robert Redford retomou, 35 anos depois, em ‘Leões e Cordeiros’. Brando, o embaixador, discursa reconhecendo erros e limites na estratégia geopolítica norte-americana. Ele fala aos cidadãos, aos americanos médios, e aparece este cara que, em casa, desliga a TV, desinteressado do que está vendo, como se aquele problema em Sarcan, lá no Sudeste Asiático, não tivesse nada a ver com ele. Em seguida teria, com a Guerra do Vietnã e o que George Englund, de alguma forma fez, foi antecipar uma discussão que se tornaria dominante naquela década. Ele é crítico do comunismo, mas não basta combater Moscou. Existem, também, do lado de cá, a indiferença, a beligerância, a corrupção. A coisa não mudou muito. Hoje em dia, criticar os EUA continua sendo sintoma de esquerda burra, retrógrada, ou pelo menos considerado como tal. Mais de 30 anos depois, achei o filme do Englund bem interessante. E o Brando? Acho que é o filme dele, daquela época, em que está mais contido, sem deixar de ser Brando. A marca do grande ator sempre foi uma espécie de tergiversação, quando ele parece que se abstrai da cena para falar em solilóquio, consigo mesmo. Tem dois ou três momentos que chegam a ser geniais em ‘Quando Irmãos se Defrontam’. E, ao contrário do Régis, achei legal o detalhe do bigodinho. Torna o personagem mais ‘exótico’, num cenário em que o exotismo, por princípio, é do ‘outro’.