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Cultura » Qual será o desfecho?

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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2009 | 13h54

No ano passado, Remo Usai, um dos grandes compositores de trilhas do cinema brasileiro, foi tema de um documentário de Bernardo Uzeda, da PUC do Rio. O filme foi premiado no É Tudo Verdade e ajudou a resgatar a figura de um artista que foi – é – importante, mas andava meio esquecido, já que sua grande fase foi nos anos 60, com Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias, entre outros diretores que fizeram a história do cinema nacional. Estou aqui na redação do ‘Estado’, dei uma folheada nos jornais do dia e, na capa do ‘Segundo Caderno’, do ‘Globo’, encontrei essa história que mexeu comigo (e terminei lendo, inteira). O grande Remo Usai, que musicou 82 ficções e 45 documentários desde 1958 – ou seja, 127 filmes -, uma carreira e tanto, está na maior penúria. Ele ganha apenas um salário mínimo de aposentadoria e, como o Ecad mudou os critérios de pagamento por músicas usadas em produções audiovisuais, o que suplementava a renda de Remo Usai parou de entrar na conta e ele está tão endivididado que tomou uma medida radical – colocou à venda seu piano para poder quitar o débito com o condomínio. Isso não vai resolver o problema. Ele pode quitar uma dívida agora, mas vai ficar sem o piano e quem garante que daqui a pouco o condomínio não estará cobrando de novo? Imagino que a situação de Remo não seja muito diferente da de outros autônomos que tentam sobreviver com baixíssimas rendas (um salário mínimo!), mas o caso me choca. Uma das trilhas mais complexas e elaboradas de Remo foi a de ‘O Assalto ao Trem Pagador’, em que fundiu temas clássicos e samba para contar a história de um personagem emblemático da produção brasileira, Tião Medonho, interpretado por Eliezer Gomes. Remo fez uma especialização em música para cinema, nos EUA, com ninguém menos do que Miklos Rosza, autor das trilhas de ‘Ben-Hur’ e ‘El Cid’. Essa história me lembra Bette Davis. No começo dos anos 60, a grande estrela estava tão por baixo – tão apagada – que publicou um anúncio pedindo emprego, num jornal. Robert Aldrich pode até ter farejado o golpe de marketing, mas contratou-a para fazer ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane?’, formando dupla com Joan Crawford, e o resto é história. Bette ressurgiu espetacularmente e iniciou nova carreira explorando sua imagem de ‘malvada’ no cinema de terror. A história de Antônio Remo Usai terá final feliz? Quem sabe o cinema brasileiro não se volta para um de seus grandes artistas (e profissionais)? Que coisa…