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Cultura » Qual era o filme?

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Luiz Carlos Merten

11 Setembro 2011 | 11h26

Cheguei agora à redação do ‘Estado’, para fazer os filmes na TV de amanhã e uma matéria sobre ‘Uma Doce Mentira’, de Pierre Salvadopri, que estreou na sexta. Em maio, depois de Cannes, passei por Parisae entrevistei o diretor e a atriz Nathalie Baye – pela segunda vez, porque já a encontrara, também Paris, em janeiro. Deixei para entrevistar Audrey Tautou no Brasil, aonde ela viria, como convidada do Festival Varilux e aí, depois da coletiva da qual fiz a mediação, com Catherine Deneuve, Audrey etc, começou o pesadelo da pneumonia, que já dura, com idas e vindas, uns três meses. Quero falar dos filmes de Vincente Minnelli que vi na sexta-feira e ontem, de um incidente que ocorreu no ônibus que me trouxe do Centro – é meu dia de proletário, lembrem-se -, mas principalmente quero deixar clara uma coisa que sinto que não ficou, no post anterior. Nos anos 1970, na época do escândalo de Watergate, Hollywood tomou o partido, genericamente falando, de Richard M. Nixon e talvez nem fosse de Nixon, mas da ‘presidência’. Foi a época em que floresceu a tendência do disaster-movie e a constante desse filme é sempre chamar a polícia, os bombeiros, os políticos – as instituições, enfim – para salvar a ‘América’ ameaçada por terroristas. lunáticos, ‘essa gente’. Agora, não. De forma velada, na maioria das vezes, aberta e criticamente em outras, Hollywood, e não apenas os autores mais ‘ideologizados’, não tomou o partido das instituições, isto é, da Casa Branca, ao contrário de outras mídias, TV, jornalismo, que ficaram a reboque do presidente e demoraram para assumir sua posição crítica de ‘quarto poder’. Agora, sim, acho que disse o que, certo ou errado – sou, como sempre, aberto a críticas -, queria dizer. De volta a ‘Fahreneit 11 de Setembro’, por mais manipulador e discutível que seja Michael Moore, está no filme dele a imagem mais impactante e reveladora da presidência de George W. Bush. O presidente estava numa escola da Flórida, entre crianças, quando recebeu a notícia do ataque às torres gêmeas. Sua expressão, ali, naquele momento grave, já antecipa todo o desastre que viria, a seguir. Mas há uma coisa que me atormenta há dez anos. Naquele 11 de setembro eu estava na redação do ‘Estado’. Tinha uma cabine. Atrasado, como sempre, ao direcionar meu pedido de carro, pesdi que ele me apanhasse no que chamamos de ‘apontadoria’, um acesso que fica próximo às escadas e aos elevadores que dão acesso ao bloco que contém, no 6º andar, a redação. Quando desci, o carero não estava e eu atravessei o páteo até o reduto do Tráfego. Ao chegar, passava na TV a imagem do primeiro avião chocando-se com o World Trade Center. Tive uma reação bem de gaúcho – ‘Bah!’ -, mas estava atrasado e só queria saber do carro para me levar. Quando cheguei ao cinema, o quadro já estava desenhado, não lembro se eram suspeitas ou se Osama bin Laden já assumira, mas foi Alessandro Giannini quem me passou as primeiras informações detalhadas. Acho que tudo aquilo, o fato de estarmos num cinema, recrudesceu em mim a ideia de qual seria a reação de Hollywood. Enganei-me, felizmente. Graças a Deus! (no sentido buñueliano). A pergunta que não quer calar – que filme vimos naquela manhã? Era no Belas Artes, tenho certeza. Mas o filme? Quebro a cabeça e não consigo me lembrar.