Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Qual é a trucagem?

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Qual é a trucagem?

Luiz Carlos Merten

15 Fevereiro 2010 | 14h53

BERLIM – Elaine Guerini vai querer me matar, mas não resisto a contar o que ela me falou, sem a precaução de dizer que era em off. Devo ser a alma solitária deste festival que gostou do Zhang Yimou. ‘A Woman, a Gun and a Noodle Shop’ está tendo a cotação mais baixa, até agora, no quadro da revista ‘Screen International’. Menos de 2 estrelas (1,8), num total de quatro. Zhang Yimou transportou sua adaptação de ‘Gosto de Sangue’ (Blood Simple), dos irmãos coen, para uma loja de noodles no meio do nada, na China, numa época indefinida. Logo no começo, um destacamento de soldados (policiais?) chega à loja, atraído pelo estrondo de um tiro de canhão. Para disfarçar, a mulher do dono oferece a especialidade da casa. O ato de preparar a massa vira um balé. Os três funcionários rodopiam com a massa no mar e a vão alargando para depois cortar em tiras. Não há ali, foi o que contou a Elaine, nenhuma trucagem. Corte, não tem. Já havia notado. Zhang Yimou preparou a cena durante semanas, meses, numa coreografia detalhada para que seus atores repetissem os gestos durante a filmagem. A cena foi aplaudida na sessão de imprensa e, depois, na oficial. Maravilha. Confesso que cheguei a pensar na precisão da cerimônia da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, também dirigida por Zhang. Lá, como aqui, o objetivo é o mercado. ‘A Woman, a Gun…’ entrou arrebentando na China – a versão aqui na berlinale é mais curta. O diretor suprimiu muitos diálogos e concentrou o humor no visual, convencido de que assim é mais interessante para plateias ocidentais. Já que estou falando de trucagens, ou não, uma dúvida que ainda não consegui esclarecer – não pude ir à coletiva de ‘Caterpillar’ porque estava fazendo entrevista. Agora, vou correr atrás do diretor. Como diabos Koji Wakamatsu fez para filmar aquele cara sem braços nem pernas? O ator aparece inteiro nos flash-backs, antes e durante a guerra. O rosto, tudo bem, é maquiagem (e bem feita). Mas o tronco? Kleber Mendonça acha que ele filmou da maneira mais simples, usando buracos para esconder os membros. Na saída da sessão, estava perturbado pelo filme, mas também por isso. Até agora me pergunto se podem ser efeitos digitalizados? O tronco vivo que monta na mulher para fazer sexo é uma das imagens mais bizarras que já vi no cinema. Wakamtasu está indo além de Tod Browning e seu mítico ‘Freaks’.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato