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Qual é a música?

Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2009 | 12h48

Não, não se trata de nenhuma reminiscência do velho quadro no programa de Sílvio Santos. Tinha pouco espaço para o meu texto sobre ‘Os Três Macacos’, de Nuri Bilge Ceylan, na edição de hoje do ‘Caderno 2’. Terminei podando uma história que adoro e vou incluir agora no post. Meu primeiro contato com o diretor foi em Cannes, há dois (ou três?) anos, com ‘Climats’, que adorei. Depois, encontrei o Ceylan no Festival de Salônica, na Grécia, onde ele estava sendo homenageado – no ano em que o cinema brasileiro também mereceu uma retrospectiva, com direito a mesa redonda. Houve um encontro de Ceylan com, a imprensa, muito informal, em que ele discorreu longamente sobre seu cinema (e preferências). No ano passado, entrevistei-o de novo em Cannes, onde recebeu o prêmio de mise-en-scène (direção), por ‘Three Monkeys’. É um filme muito bem dirigido, até demais. Ceylan gosta dessas histórias que expõem a fragilidade do humano e que ele gosta de contar relacionando sempre o homem à natureza. Céu, nuvens, chuva, vento. A natureza esmaga a esposa adúltera, o filho covarde de ‘Três Macacos’. É um filme sobre a coragem que os personagens gostariam de ter (para amar, para dizer a verdade) e sobre a covardia que os paralisa. O motorista que assumiu a culpa pelo político naquele atropelamento fatal e o próprio político que teve um affair com sua mulher. Face a essa fragilidade dos sentimentos e à força da natureza, só resta ao humano abrigar-se – a casa, a família terminam sendo os verdadeiros temas de ‘Três Macacos’. Gosto do filme, uma tragédia turca não grega, mas entendo perfeitamente quando meu amigo Kleber Mendonça diz que Ceylan carrega demais nas tintas para encaixar seu filme numa visão autoral. “Três Macacos’ foi finalizado em cima da sua apresentação em Cannes. O filme teve alguns efeitos visuais – aquelas nuvens foram retocadas digitalmente –e o acabamento sonoro, em laboratórios franceses, foi longo e elaborado. Chego aqui à história que queria contar. Ceylan nos disse, a um pequeno grupo de jornalistas, que nunca cuidou tanto do som em seus filmes. Foi algo que aprendeu com um de seus mestres, Robert Bresson. Existem coisas, ele cita Bresson, que você não precisa da imagem para mostrar no cinema – o som, sozinho, dá conta. O tratamento sonoro de ‘Três Macacos’ é o mais sofisticado da carreira do diretor. O filme não tem música, exceto a do celular, quando chama. Ceylan contou que, durante a filmagem de ‘Climats’, a equipe passou uma noite de cão, dormindo no trailer, sob frio e neve, naquela fronteira gelada do filme dentro do filme, quando o protagonista segue a mulher atriz, tentando reatar. O frio era tão desesperador que Ceylan e mais duas ou três pessoas saíram do ônibus, para caminhar, achando que, assim, talvez se aquecessem mais. Eles viram uma luz ao longe. Era uma fogueira e, em torno dela, conversavam alguns trabalhadores. Um deles era um homem jovem que já estava naquele fim de mundo há dois anos. Na Turquia, onde ainda existem casamentos arranjados, faz parte da tradição que o noivo pague à família da noiva. O cara disse que ainda teria de trabalhar ali mais uns quatro ou cinco anos antes de reunir o dinheiro do dote. Ele rezava para que a noiva o esperasase e, enquanto contava sua história, havia essa música melancólica que ficou com Nuri Bilge Ceylan e que ele quis colocar no filme. Onde? Só se fosse no celular. Achei a história maravilhosa. Não consegui contá-la no jornal. Compartilho aqui, com outra informação que, essa sim, está no texto do jornal. Ceylan inspirou-se num filme de Yalmaz Guney para fazer ‘Três Macacos’. Guney, que morreu há 20 e poucos anos, é o patriarca do cinema turco. Feroz oponente do regime, ele foi preso por suas idéias e filmes de declarado conteúdo social. Na cadeia, escreveu ‘Yol’, que seu assistente Serif Goren realizou seguindo indicações precisas, e o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1982. Dois anos depois, Guney, que saíra da cadeia e se refugiara na França, morreu de câncer. Em 1971, ele havia feito ‘Baba’, O Pai, sobre um homem rico que paga ao empregado para que assuma a culpa de um crime cometido por seu filho. Foi o ponto de partida para ‘Três Macacos’, mas as semelhanças morrem aí.