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‘Putting melos into drama’

Luiz Carlos Merten

01 Abril 2018 | 08h10

Encerra-se neste domingo, 1.º, a respescagem da retropectiva de Luchino Visconti – última chance para (re)ver Senso/Sedução da Carne. Livia Serpieri vai trair da causa da unificação monárquica da Itália jogasndo-se aos pés do amante, o oficial austríaco Franz Mahler, que toma seu dinheiro e a despreza. O melodramas, segundo Visconti. Há muito tempo, numa revista de língua inglesa que talvez ainda tenha em algum recanto da minha casa, saiu umaanálisae crítica sobre os melodramas de Vincente Minnelli. Chá e Simpatia, Deus Sabe Quanto Amei, Sedução da Carne – Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Não me esqueço do título. Putting melos into drama. Violência e Paixão começa com a fitas de um eletrocardiograma saindo da máquina. Termina com o Professor deitado, e ligado ao aparelho. Burt Lancaster estende as mãos, e chora. Mais de dez anos antes, John Ford terminara seu western creepouscular, O Homem Que Matou o Facínora, com a imagem de outro velho chorando. Por meio de Andy Devine, Ford, com certeza, lamentava a degradação dos mitos. E, entre ambos, Otto Preminger termninou A Primeira Vitória, In Harm’s Way, no hospital. Rockwell Torrey, John Waynew, recobra a consciência, todo estropiado. Chama, debilmente, por Maggie – e Patricia NeaL respopnde – ‘Estou aqui.’ Há mais de 40/50 anos, como esses grandes artistas podiam intuir que o mundo ia virar… Isso? Já contei como comprei ontem a Sight and Sound de março. Na última página, sob a rubrica Endings…, a revista lembra a última imagem de Giant/Assim Casminha a Humanidade, de George Stevens. Rock Hudson, o altivo Jordan Benedict III, tomou porrada, mas é assim que vira herói aos olhos de Leslie/Elizabeth Taylor, defendendo o neto mestiço. John Ford, sempre ele – a grandeza dos derrotados. Aqueles velhos sabiam das coisas. Confessao que me deu uma tristeza vendo a extensa lista de necrológios de Sight and Sound – Sam Shepard, Danielle Darrieux, Mary Tyler Moore, Harry Dean Stanton, mas também Lola Albright, Alexei Batalov, Powers Boothe, Brunella Bovo, Glen Campbell, Mike Connors, Peggy Cummins, Elsa Daniel, Miguel Ferrer, Barbara Hale, Sashi Kapoor, Christine Kaufman, Alexandra Kluge, Daliah Lavi… Cada um deles, e delas, estão ligados a obras que fazem parte do meu imaginário. A revista resgata The Touch, A Hora do Amor, com Elliott Gould, Bibi Andersson e Max Von Sydow, o primeiro filme em língua inglesa de Ingmar Bergman. Lembra que foi um fracasso, de público e crítica, recebido a pancadas e hoje é considerado a quintessência do toque bergmaniano. Engraçado – foi o que escrevi na extinta Folha da Manhã, deve ter sido em 1972, quando o filme estreou no Brasil. Outro dia, alguém me disse que há um movimento para recuperar A Estrada da Vida, com Milionário e Zé Rico, como um belo filme autoral de Nelson Pereira dos Santos. Lembro-me de haver escrito exatamente isso no Coojornal, no tempo em que o jornal da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre era o farol da imprensa brasileira, durante a ditadura. O retrato do artista como trabalhador. A cena da reforma na loja de discos. O despertar do povo humilde. Tenho relido Jorge Amado – o mais recente, Os Pastores da Noite. Histórias de corpos fechados – lembrei-me muito de O Amuleto de Ogum, um grande filme nacional popular de Nelson. Estou aqui divagando nesta manhã de domingo, 1.º de abril. Devo ser um velho tolo, mas não estou chorando. Minhas ilusões seguem vivas.