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Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2011 | 11h10

RIO – A première mundial do novo filme de Beto Brant e Renato Ciasca, com a deusa Camila Pitanga, arrastou uma multidão ao Odeon. O cinema tinha gente pelo ladrão. Vilma Lustosa, da organização do festival, me viu de pé num canto e me cavou um lugar. Terminei vendo ‘Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios’ ao lado de Vanessa Lóes, mulher de Thiago Lacerda. Sei que me exponho, mas eu gostava dos filmes de Beto Brant no começo da carreira dele. ‘O Invasor’ me pareceu supervalorizado, ‘Crime Delicado’, um equívoco, e ‘O Amor segundo B. Schianberg’ simplesmente não aconteceu. Gostei de Cão sem Dono’, em parceria com Renato Ciasca, e tentei entrar no novo filme, a sétima parceria de Beto com Marçal Aquino, baseada num livro dele, de cabeça. Gosto demais do elenco do filme, não só a Camila, mas o Gustavo Machado, o Zécarlos Machado, gente de teatro a quem admiro (muito). De novo, empaquei. Percebo a beleza das cenas, as linhas do ‘processo’ que permanecem na desconstrução da narrativa. Desta vez, nem foi a pretensão que me incomodou. Vi tantos filmes viscerais – os de David Cronenberg, Bertrand Bonello e Pedro Almodóvar, mais interligados que parecem – que tudo aquilo, o sexo, a arte, a dor, me pareceu fake demais. Um filme sem alma. Mas eu vou rever ‘Eu Receberia…’ Vou me dar outra chance, não dar chance ao filme, de gostar. Confesso que fui ao poste com exagerada expectativa, nem sei por quê. Na verdade, sei. Os filmes da Première Brasil deste ano, de maneira geral, têm me decepcionado. Vi coisas ruins, outras nem tão ruins, mas nenhuma paixão à primeira vista. O filme de que mais gosto, ‘Mãe e Filha’, de Petrus Cariry, já havia gostado em Gramado. Passei a concentrar no filme do Beto e do Renato toda a minha expectayiova por assistir a alguma coisa que realmente fizesse a diferença. A explosão final de ‘Eu Receberia…’ foi uma apoteose. O povo parece ter amado. Saí do cinema me esgueirando, à francesa, caí na Cinelândia às escuras e ali encontrei o encantamento que o filme não me proporcionou. Na minha frente, deslizando pelo chão, passava aquela bola imensa, transparente, e, dentro dela, o bailarino. Explico. O Rio inicia hoje, no feriado, uma série de eventos. Haverá à tarde um show no Obelisco, em frente à av. Rio Branco, comemorando os 80 anos do Cristo Redentor, para o qual se esperam 1 milhão de pessoas. Na sexta e sábado, na Cinelândia, haverá o tal balé. Será uma coisa pirotécnica. Bailarinos suspensos por cabos, outros dentro daquelas bolas infladas. Ainda não sei que ligação isso tem com Federico Fellini, mas na Cinelândia já estão dispostos painéis imensos com desenhos do grande diretor italiano. Jantando tarde da noite no Amarelinho, por volta de 1 h da manhã, tenho assistido aos ensaios. Isso me levou a Veneza, numa das primeiras vezes (a primeira?) em que cobri o festival, no começo dos anos 1990. Toda noite, depois da última sessão, corria para o vaporeto e varava a madrugada caminhando por São Marco. Houve não me lembro que homenagem a Fellini, mas eu acompanhei os ensaios da coreografia que reproduzia o encontro de Casanova com a boneca animada. Aquilo permanece como um dos momentos mágicos da minha vida. A trilha de Nino Rota, a todo volume, invadindo a piazza deserta, que, naquela noite, eu tive só para mim (e para aqueles artistas). Ontem, logo depois da bola com o bailarino, fui atraído para a lateral do Teatro Municipal, onde, num palco montado, um grupo dançava ‘Carinhoso’. Meu coração/não sei por quê/bate feliz/quando te vê… E logo, na sequência, ‘Trem das Onze’. Não posso ficar/nem mais um minuto com você/sinto muito, amor, mas não pode ser. A vida, Ingmar Bergman tinha razão no desfecho de ‘Gritos e Sussurros’, é feita de momentos.

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