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Provocando, provocando

Luiz Carlos Merten

17 Abril 2009 | 15h47

Lá vou eu em busca de sarna para me coçar. Minha colega Eliana Souza, pauteira do ‘Caderno 2’, sabe, melhor que ninguém, quanto gostei de ‘Mataram Irmã Dorothy’. Ela acompanhou meus esforços para entrevistar o diretor Daniel Junge e o irmão da missionária assassinada no Pará, David Stang. O texto está na edição de hoje do ‘Caderno 2’. Lili, como a chamamos, abriu a ‘Folha’ e gritou ‘Xiii, Merten! Tão demolindo aqui a irmã Dorothy…’ O argumento é que o diretor manipula a carga emocional e usa recursos surrados. Não sei quais recursos o autor do texto considerou surrados. Eu gostei da forma como Daniel Junge retrata os dois lados em disputa deixando claro seu partido. Isso ele só pode fazer por meio da montagem, claro. Como não li a crítica, não posso falar sobre ela, mas me interessa dizer duas ou três coisas. Embora dê voz ao outro lado, o diretor de ‘Mataram Irmã Dorothy’ vale-se da montagem para expressar por qual lado torce nessa disputa. Há um ano ou dois, nem me lembro, Tabajara Ruas apresentou no Recife seu documentário sobre Leonel Brizola. Achei o filme emocionante e o personagem, fordiano – a grandeza de um homem que pode ter passado à história como derrotado, mas teve gestos que redimem não só uma, mas muitas vidas. Tive de ouvir o besteirol de sempre – havia gostado porque Brizola era gaúcho, tchê!, essas coisas. Os coleguinhas, na coletiva, caíram matando sobre o Tabajara. Cobravam ‘isenção’, nome que se dá a essa fantasia que consiste em fazer crer que é possível ser absolutamente imparcial. Tudo bem que se cobre isenção jornalística, mas todos nós sabemos quanto ela é difícil (e em geral quem cobra já tomou posição e é a do outro lado, não importa a disputa). Ocorre que documentário e cinema não são jornalismo para se cobrar imparcialidade. E quanto a manipular a carga emocional… Mas não é o que faz o cinema? Em toda a história dessa arte, raros foram os autores que ousaram ser brechtianos, adotando o distanciamento crítico. Joseph Losey talvez seja o caso mais notável. Eisenstein, grande teórico, dizia que o cinema consiste em ordenar as imagens no inconsciente do público. A obra-prima de Eisenstein, o filme que muita gente considera o melhor de todos os tempos – ‘O Encouraçado Potemkin’ -, foi concebido como obra de propaganda, para comemorar os 20 anos dos levantes de Odessa, que levaram à revolução de outubro de 1917 na Rússia. O grande crítico Walter da Silveira, a propósito, dizia que a Revolução Russa pode ter virado uma m… totalitária, mas para a história do cinema ela era crucial. A célebre cena da escadaria de Odessa, os 7 minutos mais influentes de todos os tempos segundo um monte de gente, é um exemplo de manipulação da carga emocional das imagens, ou será que me engano? Jogo esses temas para vocês. Preciso sair para resolver uns assuntos. Espero que vejam ‘Mataram Irmã Dorothy’.