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Luiz Carlos Merten

12 Novembro 2006 | 12h00

Não tenho muita paciência com diretores que ficam respondendo a críticas. Nem acontece muito comigo, mas o assunto veio à tona num debate de que participei durante o Festival do Rio. Estavam na mesa Carla Camurati, Cacá Diegues e eu. Até brinquei com a Carla, a quem admiro muito, independentemente de gostar ou não de seus filmes, ou de todos os seus filmes. Carla é uma guerreira e o que ela fez com Carlota Joaquina pertence à história do cinema brasileiro, menos até o filme do que a batalha, bem sucedida, para exibí-lo, num momento de retração total do mercado. A Carla chorou as pitangas, como se diz no Sul. Diz que quer fazer cinema diversão e os críticos caem matando. Falam mal , a ofendem, cobram o filme que eles querem e ela não está disposta a fazer. Eu brinquei, como já disse. Desabafou, perguntei? Pois é isso. Os críticos falam mal do filme, o diretor fala mal do crítico, o público, muitas vezes fala mal do filme, do diretor e do crítico. Raramente me defino como crítico. Gosto de achar que sou jornalista de cinema, o que me parece mais abrangente e adequado para o tipo de trabalho que gosto de desenvolver no jornal. Já disse e repito. O filme pertence ao diretor enquanto ele está fazendo. Depois da estréia, é nosso. Se o público ou o crítico não entenderam o filme como o diretor queria é porque talvez ele não tenha atingido seu objetivo, porque ousou mais ou menos que o público queria ou, simplesmente, porque os espectadores se apropriaram do filme para o tipo de leitura que puderam (ou quiseram) fazer. Tem espectador médio que se assusta com o excesso de inovação de determinados filmes. Tem cinéfilo que acha outros filmes demasiado tradicionais (ou pouco ambiciosos, intelectualmente). Uns falam mal dos outros e a tragédia é que todo mundo vai às mesmas sessões, senta lado a lado. O filme tem isso. Obedece a um ritual coletivo (a ida ao cinema), mas sua fruição é individual, por mais que o grupo possa interferir. Não é uma ciência exata, como a matemática. Enfim, vamos deixar aos autores o beneplácito da dúvida – eles sempre poderão pensar, no íntimo – e certamente vai ser bom para o ego deles – que os críticos e o público que rejeitaram seu trabalho não ‘entendeu’, embora, claro, se fosse para todo entender do mesmo jeito, o filme deveria vir com manual de instrução. Todo esse papo é para chegar a alguma coisa. Até para ser coerente, não posso ficar respondendo às críticas anexadas ao blog como comentários. Pequenas ofensas – vaidoso, presunçoso –, tudo bem. Mas vou comentar o comentário, como se diz. Só uma vez. Não existe nada mais complicado do que trabalhar com a ironia, meu colega Zanin (Luiz Zanin Oricchio) sempre diz. Você corre o risco de não ser compreendido, ou ser tomado ao pé da letra em relação àquilo com que está querendo brincar. Fiz uma piadinha, no título do post sobre Atom Egoyan, sobre a mãe do Almodóvar (o texto é mais claro) e uma leitora colocou a provocação – ué, nem sabia que Almodóvar tinha mãe… Sim, claro, Almodóvar tem mãe, até o Cristo tem mãe, pois o Espírito Santo fecundou Maria, não precindiu do ventre dela para gerar o Filho do Homem. Como Almodóvar não teria mãe? A sugestão da leitora é que talvez Almodóvar seja Deus? Um Deus da dramaturgia, talvez, o maior dos diretores? Viajo, bem entendido, mas é só brincadeirinha (de novo). Vamos adiante. Outro leitor, comentando meu texto do Gil, em que o chamei de pernóstico, foi ao dicionário atrás da definição que lhe convinha para me chamar de invejoso do ministro. O post é altamente favorável a Gil, mas vamos lá. Até poderia ter inveja do artista que criou Domingo no Parque. Até hoje acho que é a música mais cinematográfica feita no Brasil. Aquilo é um roteiro pronto, com decupagem e tudo. Me admiro que nunca ninguém tenha filmado. Mas o leitor, no comentário, pegou somente parte da definição de pernóstico no Aurélio. Está lá – presumido, afetado, pretensioso, pedante e o sentido, do texto, obviamente, era esse. O leitor pegou o outro – pessoa que gosta de empregar termos difíceis, os quais freqüentemente desconhece e ele escreveu ‘não raro’, em vez de freqüentemente. Se é não raro, ou mesmo que seja freqüentemente, não é uma afirmação de que desconhece, a grosso modo. Nem estou desqualificando o ministro, longe disso, nem estou me achando mais sábio que ele. Enfim, postei o texto do Gil porque achei importante que as pessoas se manifestassem sobre o assunto. Ele deve continuar ministro? O comentário do comentário não é para inibir ninguém. Continuem opinando e eu prometo não interferir mais. Por enquanto, pelo menos.