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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2011 | 13h09

Ia chamar o post de ‘O Discurso do Gay’, mas resolvi maneirar. Acabo de redigir meu texto para a edição de domingo do ‘Caderno 2’, a famosa expectativa do Oscar. Por todos os indicadores, as votações das Guilds – ligas ou sindicatos de produtores, diretores, atores e roteiristas –, ‘O Discurso do Rei’ deve ganhar (e Tom Hooper, e Colin Firth, e Natalie Portman). Confesso que, no íntimo, não gostaria de ver nada disso se confirmar. A própria Natalie, que me parecia imbatível, e pelo visto é, agora me faz vacilar. Meu entusiasmo por ‘Cisne Negro’ arrefeceu um pouco depois de assistir a ‘Pina’, de Wim Wenders, e isso apesar de ‘Cahiers du Cinéma’, a Bíblia do cinema de arte (ou não é mais?), dedicar sua capa de fevereiro a ‘Cisne Negro’, considerando Darren Aronofsky o chefe de fila dessa nova Hollywood que está indo para a liça. Por mais que admire Natalie, não me desagradaria ver Annette Bening levar por ‘Minhas Mães e Meu Pai’, de Lisa Cholodenko. Revi o filme e sua cena à Laura Adani (procurem posts antigos para entender a referência), quando ela corre Mark Ruffalo de casa, em defesa de sua família alternativa, me parece melhor e mais importante – pelo que propõe, não pelo que recupera – do que o discurso do rei Colin Firth, mas Hollywood, afinal, tende a ser conservadora. Irrita-me um pouco essa história de que a safra de 2010 não foi boa, não teve ‘criatividade’. Ah, é? E ‘A Rede Social’? E ‘A Origem’? E ‘Toy Story 3’? São três filmes que, para mim, já fazem parte da história do cinema. Fico indignado porque Christopher Nolan sequer foi indicado para melhor diretor, mas isso é a cara de Hollywood. O cinemão investe pesado em efeitos, mas a Academia quer ‘seriedade’. Essa gente é incapaz de ver que a reflexão de Nolan sobre o sonho, sobre sonhar acordado, está na própria essência conceitual do mecanismo sobre o qual se assenta o cinema atual. E o começo de ‘A Rede Social’? Só nos filmes mais alternativos eu vi um diálogo como aquele, filmado daquele jeito – é o anti-Hollywood, maravilhoso. Temo que a Academia termine preferindo, como parece que vai ser, uma boa e velha história à moda antiga, sobre um rei, que não queria ser rei, mas superou seus limites – a gagueira –, discursando para a nação, a Inglaterra, o que ela queria ouvir, do jeito que queria ouvir. Vejam que Hollywood está, há anos, salvando a monarquia inglesa. ‘A Rainha’, ‘O Discurso do Rei’ – o filme de Stephen Frears era melhor e a Elizabeth II de Helen Mirren também, de alguma forma, me tocou mais. Havia nela uma exasperação, ao ser acuada, que a tornava humana. O rei do ‘Discurso’ carrega o gay de ‘O Direito de Amar’. É a mesma interpretação – uma coisa parecida querendo sair de dentro, ou do armário, seja a voz ou a sexualidade aprisionadas. A questão é que esse ‘conservadorismo’ não é um fenômeno só hollywoodiano. A França também realiza hoje a festa de premiação do César, o seu Oscar. Deve ganhar ‘Sobre Deuses e Homens’, de Xavier Beauvois, que provocou verdadeira comoção de público e a crítica seguiu de roldão, recusando-se a ver que se trata da versão up to date de ‘O Diálogo das Carmelitas’, também conhecido como ‘Assim Deus Mandou’, do padre R.L. de Raymond Léopold, Bruckberger, execrado pela nouvelle vague por volta de 1960 e o filme nem era tão ruim, calcado no texto de Georges Bernanos e co-dirigido pelo fotógrafo de Robert Bresson, inclusive em ‘Le Journal d’Un Curé de Campagne’, Pierre (era mesmo Pierre?) Agostini. Gostaria que vocês não apenas comentassem o post como apresentassem seus favoritos para o Oscar de domingo. Vamos lá, gente. Mexam-se! Vocês têm me deixado na mão nos últimos posts.

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