Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Profissão: bandido

Cultura

Luiz Carlos Merten

30 Maio 2010 | 13h25

Estava em Cannes e nem me lembro mais onde li. São tantas as publicações que circulam por aquele festival. Mas li sobre a homenagem tardia a Dennis Hopper, que recebeu sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood um dia ou dois depois de saber que estava terminal de câncer, sem possibilidade de volta. Havia uma foto dele com o amigo Jack Nicholson, que o acompanhou na homenagem. Havia uma terceira pessoa, outro ator, mas não consigo me lembrar quem era. Hopper estava devastado, fisicamente. O título aí em cima foi sugerido por Jotabê Medeiros. Dennis Hiopper surgiu como bad boy nos anos 1950, ao lado de James Dean em ‘Juventude Transviada’ , de Nicholas Ray. Ainda ao lado de Jimmy Dean, foi o filho de Elizabethy Taylor em ‘Assim Caminha a Humanidade’, de George Stevens. Hopper, no filme, casa-se com uma chicana, que Dean, aliás, Jet Rink, humilha em público, levando seu pai, Rock Hudson, àquela briga de socos que faz parte das minhas lembranças definitivas no cinema. Dennis Hopper seguiu bad guy. Foi bandido em vários, ou pelo menos alguns westerns de Henry Hathaway. Consta que o grande diretor e ele viviam às turras nos sets de filmagem, mas Hathaway sempre o chamava para o próximo filme, de certo consciente de que o cara era talentoso e que, se o aporrinhava, era para contestar uma autoridade que, no fundo, era indiscutível (e ambos sabiam disso). Imagino, agora sou eu fantasiando, que Hathaway tenha sido um paizão para Dennis Hopper. Ele teria sido só um James Dean que não deu muito certo – que não virou astro – se as boas amizades de Peter Fonda e Jack Nicholson não o tivessem levado a assinar um dos filmes emblemáticos das mudanças de Hollywood na segunda metade dos anos 1960. ‘Sem Destino’ (Easy Rider) abriu um novo capítulo na história da produção independente dos EUA. Seu sucesso sacramentou uma fase da contracultura e consolidou a chamada era de ouro dos indies. Peter Fonda e o próprio Dennis Hopper caem na estrada a bordo de motos possantes. Fazem o caminho inverrso dos pioneiros, indo da Califórnia para New Orleans, para o Mardi Gras. No caminho, ligam-se ao advogado Jack Nicholson. A geração da drogas encontra a do álcool. Mais tarde, Francis Ford Coppola faria uma nova versão deste confronto em ‘O Selvagem da Motocicleta’, na cena famosa de Mickey Rourke com Hopper. ‘Sem Destino’ estabeleceu um novo tipo de marginal – o sonho de paz e amor era pervertido pela droga e pela violência, como quando Woodstock terminou nos tiros de Altamond. Hopper dirigiu outros filmes, um que nunca vi, mas que já ouvi dizer que é o melhor dele – ‘The Last Movie’ – e, claro, ‘Cores da Violência’, Colors, sobre as guerrras de gangues em Los Angeles, outro filme de muita repercussão social (em 1988, quase 20 anos depois de ‘Easy Rider’). Num determinado momento, acho que Hopper deixou de ‘interpretar’. Virou uma ‘persona’. Bastava ele entrar em cena e o próprio espectador fazia a ligação com os marginais que havia criado, antes e sempre. Nunca lhe faltaram grandes papeis nem grandes realizadores – o citado Coppola, o David Lynch de ‘Veludo Azul’. Não creio que tenha havido outro personagem dessa dimensão em Hollywood. Hopper fez a passagem de ator para autor. Clint Eastwood fez uma travessia semelhante, e foi mais longe, como artista, mas Hopper ousou mais, como homem. Viveu todos os excessos. Sexo, drogas e rock’n’roll. Dennis Hopper morreu aos 74 anos. Curiosamente – coincidentemente? -, Clint completa, amanhã, 80. De novo, vai mais longe. Neste momento, redigindo este texto, misturo na lembrança o Hopper de ‘Sem Destino’ com o de ‘Veludo Azul’, mas o que permanece na memória é o de ‘Giant’. E nem é ele. É o fim do épico de George Stevens. Lembram-se? Sal Mineo,. também do elenco de ‘Juventude Transviada’, foi lutar na 2ª Guerra e morreu na Europa, enfrentando o racismo dos nazistas, mas no Texas não passava de um excluído, por ser mexicano. No desfecho, o racista James Dean, que amava Liz Taylor, leva aquela surra monumental de Rock Hudson. Na derradeira cena, Liz revela quanto se orgulha das feridas do marido. E ali, na frente deles, estão as duas crianças. O menino branco e o de pele mais escura, filho de Dennis Hopper, numa promessa de integração racial – o filme é de 1956 – que ainda teria de passar pelas guerras dos anos 1960 para chegar, nos anos 2000, ao primeiro presidente negro dos EUA. Dennis Hopper faz parte de uma longa história. Eu amava aquele peste.