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Luiz Carlos Merten

21 Dezembro 2006 | 09h12

Minha colega Regina Cavalcanti, com quem brigo todo dia, mas de quem não conseguiria viver longe, diz que eu deveria trocar o nome do blog. Ele passaria a ser ‘Meu querido diário’. Não é, claro, um diário, mas certas informações precisam ser contextualizadas e, por isso, digo onde estou, o que faço etc. Agora mesmo estou no jornal, embora hoje seja o primeiro dia de minha folga de Natal. Daqui a pouco sigo para o aeroporto, rumo a Porto Alegre. Adoro a cidade na qual nasci, mas Porto, por um lado tão ‘alegre’, está virando uma experiência um pouco penosa para mim. Já estou naquela idade em que você olha para o lado e os amigos estão morrendo, se aposentando. Passo por certos lugares em Porto Alegre e são referências de determinado fato, ou determinado momento. Não quero ser saudosista nem nostálgico, mas me pego lembrando do Sérgio Moita, do Romeu Grimaldi, do Jefferson Barros, do Cozzatti. Enfim, Porto Alegre, lá vou eu, mas antes quero dizer que fiz o destaque de domingo nos filmes da TV, no Telejornal, e tinha uma oferta tão vasta no Telecine Cult que eu não resisti. Vai ser o Natal do cinéfilo solitário. Se você estiver nesta, sintonize no TCC a partir das 16h40 para assistir, em seqüência, a Atirem no Pianista, Procura Insaciável, A Igualdade É Branca e Bonequinha de Luxo. Fiz o destaque coletivo e, depois, meio que me arrependi. Deveria ter feito só de Procura Insaciável, que passa às 18h10. Admiro muito Milos Forman. Seus filmes checos – Pedro, o Negro, Os Amores de Uma Loira e O Baile dos Bombeiros – me encantavam pela leveza e descontração, e olhem que o cinema checo, nos anos 60, era todo ele muito delicado e até preciosista, no tratamento da imagem. E então veio 68. Os fascistas, vestidos de vermelho, invadiram Praga com seus tanques, para sepultar aquela breve primavera, que foi, talvez, pelo menos para quem acompanhou à distância, a mais bela prática de socialismo democrático do mundo. Direitista que se preze acha que isso é uma contradição em termos, mas quem é (ou foi) de esquerda, sonhando com um outro mundo, mais humano, sabe que o verdadeiro socialismo tem (teria?) de ser democrático. Forman expatriou-se nos EUA. Pronto – vai se vender aos americanos, disseram amigos stalinistas. O primeiro filme foi justamente Procura Insaciável (Taking Off), sobre um casal que busca a filha que desapareceu, no bojo do movimento de contestação (e contracultura) que sacudia os EUA, por volta de 1970. Forman fez um dos filmes mais demolidores que já vi sobre a sociedade americana. E logo vieram Hair, Um Estranho no Ninho e o meu favorito, Na Época do Ragtime, no qual, baseando-se no romance de Doctorow, Forman fez o maior ataque da história de Hollywood ao racismo. Quem escreveu isso foi Paulo Francis, outro entusiasta do filme, mas Francis não entendeu o Forman seguinte, Amadeus, vendo como defeito o que era a qualidade daquela obra-prima ‘musical’ – um Mozart para roqueiros. E vieram Valmont, muito bonito, mas Ligações Perigosas, de Stephen Frears, também baseado em Choderlos de Laclos (que Vadim já filmara com música de Miles Davis), era melhor. Valmont é de 1989. Passado um hiato de sete anos, Forman fez Larry Flint. Mais três anos e foi a vez de O Mundo de Andy, com o palhaço Jim Carrey transformado num ator dramático genial – nem me lembro mais quem ganhou o Oscar naquele ano. Ah, a academia… Quantos gênios preteridos em nome de prêmios atribuídos à mediocridade! Tenho grande respeito e admiração por Milos Forman. Sua carreira foi feita de percalços, mas tem uma coerência e uma riqueza que me encantam. E ele foi sempre crítico em relação ao mundo. Não tenho muita paciência para ficar navegando na internet, atrás de informações sobre ele. Por que Milos Forman não filma mais? Eu quero Milos Forman, preciso Milos Forman. Vejam, ou revejam, Procura Insaciável e digam se não tenho razão.

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