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Pro dia nascer feliz

Luiz Carlos Merten

01 Outubro 2006 | 10h35

Há um momento de Antônia em que o novo filme de Tata Amaral pareece que vai explodir. É quando as garotas da Vila Brasilândia realizam o show na casa do riquinho. Elas cantam seu rap, ele as interrompe, o babaca, para dizer, dirigindo-se à namorada – você se lembra da nossa música, meu amor? E começa a cantar a velha Roberta Flack, Killing Me Softly. Aos poucos elas juntam a voz e a reação da platéia do Cine Palácio, na Première Brasil, ontem à noite, foi de adesão. Gritos, aplausos, virou uma festa. As garotas estavam presentes, a platéia era de convidados, o que talvez explique a paixão. Tomara que a reação do público das salas comerciais seja assim tão boa. Talvez tenha ido com excessiva expectativa ver o filme da Tata. Acho que ela é sensacional, adoro Um Céu de Estrelas, gosto, apesar de algumas restrições, de Através da Janela, mas Antônia me decepcionou. O filme vai virar série da Globo, que vai ao ar antes (em novembro) da estréia nos cinemas, apontada para o ano que vem. Não esperava um compêndio de sociologia, mas achei o formato, os conflitos, demasiado superficiais. Muito clichê de periferia. O filme já está pronto para virar um telefilme. Negra Li canta legal, mas nem ela nem suas colegas são atrizes. Houve momentos em que, mesmo com preparação de elenco, a mim, pelo menos, não convenceram. Mas o filme tem uma grande idéia. Não falo da cena já assinalada, os dois mundos em choque, a periferia e o centro do poder, na festa – a tragédia é que não são dois mundos, é o mesmo mundo. Beto Brant, Murilo Salles, Fernando Meirelles têm refletido sobre isso, até o João Jardim. no documentário dele sobre o sistema de ensino,Pro Dia Nascer Feliz, que também está na Première Brasil e tem a cena magnífica em que a burguesinha da escola de Alto de Pinheiros revela a mais clara percepção deste verdadeiro drama brasileiro. A colega diz que a incomoda a questão da invisibilidade social, essa gente endinheirada que, nos semáforos, não quer olhar para o outro mundo dos excluídos. Com uma lucidez que político em campanha não teve, a garota que pensa diz que são o mesmo mundo. A cena é muito forte, no documentário do João como no filme da Tata, mas a grande idéia de Antônia, eu achei outra – o sobe e desce do morro da Brasilândia, o bota e tira sapato das garotas. Aquilo é uma reflexão de diretora, é pura mise-en-scène. O que Tata ficou me devendo em densidade me forneceu, por momentos, na inteligência de sua direção.