Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Prince of Pérgia

Cultura

Luiz Carlos Merten

11 Junho 2010 | 09h28

Sei que tem gente que deve achar bobagem, mas adoro, no começo de ‘O Príncipe da Pérsia’, a ênfase dada à busca das armas que Alamut estaria repassando aos inimigos do império persa como motivo ‘oficial’ para a invasão, embora nós, o público, descubramos com Dastan que, na verdade, a busca era por outra coisa – a adaga sagrada que contém as areias do tempo. Devo ser o único neste mundo de Deus a achar que o roteirista Boaz Yakin, se não exatamente o diretor Mike Newell e o produtor Jerry Bruckheimer, tinha em mente as armas nucleares que Bush Jr. usou como justificativa para invadir o Iraque, mas que Hugo Chavez, no filme de Oliver Stone, sensatamente (o Chavez!), diz que foi outra coisa, o petróleo. Aliás, sobre ‘Ao Sul da Fronteira’, Maneco Siqueira, assessor da Europa, me disse anteontem, quando o encontrei na cabine de ‘A Jovem Rainha Victória’, que o diretor pode ter sido um sucesso de mídia, mas o filme foi, está sendo, um fracasso retumbante. ‘Ao Sul da Fronteira’ fez 1900 espectadores com 20 cópias, no primeiro fim de semana. Ontem, quando fui (re)ver ‘O Escritor Fantasma’ no Bourbon, perguntei, só como curiosidade, como estava indo o filme. Ninguém – nin-guém! – havia comprado ingresso para ver o documentário de Mr. Stone na sessão das 21 horas e pouco, e olhem que deveriam, nem que fosse para polemizar. Mas volto a ‘O Príncipe da Pérsia’. Fui procurar não sei que informação sobre filmes na TV e entrei num blog cujo titular tergiversava sobre o roteiro fraco do filme. Eu acho o roteiro engenhoso e a marcha-ré no tempo me encanta, embora Dib Carneiro e Regina Cavalcani, que foram ver o filme comigo – encontramos, por acaso, Lúcia e Érico, minha filha e genro, na mesma sessão –, tenham achado a primeira parte um pouco lenta e a final, acelerada. Quando perguntei a Jerry Bruckheimer qual seu critério para escolher os diretores de suas fantasias de ação, a resposta foi muito interessante. Disse-lhe que havia ficado surpreso ao descobrir que Rob Marshall está fazendo ‘Piratas do Caribe 4’. Afinal, um diretor de musicais… Ele respondeu que justamente por isso, porque o cara seria hábil ao coreografar as cenas de violência e é disso que se trata, de coreografia. O caso de ‘Príncipe da Pérsia’ é diferente e tendo a concordar com ele. Bruckheimer acha que a história de Jordan Mechner, criador do game, e o roteiro de Boaz Yakin não enfatizam somente a ação, mas buscam motivações mais fundas para os personagens. A amargura desmedida de Sir Ben Kingsley, consequência de sua ambição frustrada, a fidelidade de Jake Gyllenhaal ao nobre imperador que o tirou das ruas, o espírito de sacrifício de Gemma Arterton (como Tamina). Para isso ele precisava de um diretor de ação que fosse bom com atores e ninguém é melhor do que Newell. Interessante a avaliação do produtor. O próprio Newell me disse que encontrar o tipo de beleza que buscava para Tamina foi o mais difícil. Ele já estava apelando para Bollywood – a tez morena, os olhos arredondados, a carnação exuberante –, quando descobriu Gemma, que forma uma bela dupla com Jake e os momentos em que ela o provoca e ele fica sem fala me deixam como criança diante do bolo. Enfim, adoro aventuras (com ética). Esbaldar o Id no escurinho do cinema com certeza faz parte dos mistérios porque gosto de filmes. O título do post tem uma explicação – Pérsia, em inglês, Pérgia, fica tão sonoro que não resisto a cravar a palavra.