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Luiz Carlos Merten

11 Agosto 2008 | 09h11

GRAMADO – O primeiro longa da noite, o gaúcho ‘Dias e Noites’, de Beto Souza, foi uma decepção. Havia defendido ‘O Serro do Jarau’, primeiro longa solo do Beto – ele co-dirigiu ‘Netto Perde Sua Alma’ com Tabajara Ruas – e a Neusinha Barbosa até hoje não perdoa e faz piada, cada vez que me vê. Mas não me atreveria agora a defender o ‘Dias e Noites’, que se baseia num livro do autor gaúcho Sérgio Jockyman, ‘Clô, Dias e Noites’. Ou eu me engano muito ou ‘Clô’ havia sido publicado originalmente como folhetim. Nada funciona e, se o ridículo matasse, metade do elenco ia diretamente para o cemitério, incluindo a atriz que faz Clô, mulher que reage à violência dos homens e termina por se afirmar, pelo poder e pelo dinheiro, num universo de machos que tenta domá-la como a uma égua do campo. Não que a atriz, cujo nome não lembro – vou checar no catálogo e informo -, seja ruim. O problema é que o cinema começa e se dilata na epiderme dos atores e ela só se encontra com a personagem como avó. Jovenzinha, como noivinha ansiosa, parece a pobre Norma Shearer fantasiada de Julieta na adaptação que George Cukor fez da tragédia de Shakespeare, na qual Julieta e seu Romeu – Leslie Howard – deviam ter juntos um 80 anos, no mínimo. E a música é atroz. Toca o telefone, Clô recebe uma notícia que a deixa arrasada e, desde o começo, o toque é de finados. De lascar! Prefiro o lamento que José Mojica Marins arrancou a fórceps do compositor André Abujamra em ‘Encarnação do Demônio’, na cena do enterero da criança. Mojica me disse que estava impactado com a morte da menina Isabela – quem não? – e quase deixou o Abujamra louco para tirar dele a música que queria (e que não é aquela coisa pegas e caudalosa, como o próprio filme, do ‘Dias e Noites’). Muitos coleguiinhas, por já terem visto o filme de Murilo Salles, ‘Nome Próprio’, saíram para jantar. Alguns ficaram (ficamos) para o primeiro longa da competição brasileira. O do Beto havia passado fora de concurso. No final, éramos meia sala. Valeu a pena. Havia achado a personagem irritante e, com ela, o próprio filme. Ela continua irritante no seu excesso – e Leandra Leal já é candidata ao KIkito de melhor atriz -, mas o filme desta vez me pareceu muito interessante. Pode ter ajudado o seminário ‘A Aventura da Modernidade’, de que havia participado em Porto, no sábado, antes de vir para Gramado. Depois, explico como e por quê, mas o filme vale, hein. Só que, assim, como o ‘Demônio’ exige espectadores com estômago de ferro, ‘Nome Próprio’ exige nervos de aço para agüentar a Camila.