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Luiz Carlos Merten

08 Julho 2009 | 13h56

Falei do DVD de ‘Van Gogh’, de Maurice Pialat, que mereceu dois textos no ‘Caderno 2’. Um, meu, na edição de hoje, e outro anterior, pelo Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, no ‘Cultura’ de domingo passado. No meu pequeno círculo aqui no jornal, causou certo alvoroço o fato de eu ilustrar o texto com uma foto em preto e branco, na qual Jacques Dutronc, que faz o papel, aparece de costas. Permitam-me explicar. Quando cheguei ontem da minha frustrada tentativa de assistir a ‘Harry Potter e o Enigma do Príncipe’, havia uma foto colorida de Dutronc na página em fechamento. Troquei – uma, por achar que a que saiu publicada estava mais de acordo com o espírito dessacralizador do filme (e também porque Pialat, que despediu dois diretores de fotografia, nunca ficou muito satisfeito com a imagem colorida de seu ‘Van Gogh’), mas principalmente como uma homenagem muito secreta a Resnais. Acho deslumbrante a utilização da cor, por Minnelli, em sua cinebiografia do pintor – ‘Sede de Viver’, com Kirk Douglas, que termina com a imagem de um quadro, os corvos voando sobre aqueles ciprestes míticos –, mas nunca esqueci o PB que, para mim, realçava a estrutura dramática do documentário de Resnais, com aquele recitativo de Jean Servais. Imagem e som nunca deixaram de rodar na minha cabeça desde que vi aquele ‘Van Gogh’ na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em Porto, no começo dos anos 60. Mas confesso que muitas vezes carreguei uma dúvida. O filme é mesmo PB? Queria tirar a dúvida na recente retrospectiva do CCBB, mas desisti. Assisti a ‘Di’, de Glauber, numa versão em DVD, em PB, e tomei um choque ao descobrir que o filme é colorido. O que vi me pareceu tão irretocável, não consigo imaginar aquilo com cor. O outro foi o documentário de Miriam Chnaiderman sobre cemitérios, que também vi em preto e branco e até escrevi como se assim fosse, no ‘Caderno 2’. Um dia, cheia de dedos, a própria Miriam me disse que ia enviar um DVD com a versão colorida, para eu ver se mudaria a mesma coisa. O preto e branco daquele ‘Van Gogh’ faz parte das minhas experiências mais fortes no cinema. Foi uma viagem muito pessoal, reconheço, mas foi o que tentei resgatar no jornal.