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Luiz Carlos Merten

28 Junho 2009 | 14h50

Mudando completamente o assunto. Recebi o DVD do filme de Louis Malle, ‘Os Amantes’. Malle carregou pela vida a etiqueta de cineasta do escândalo e ela começou justamente com ‘Les Amants’, em 1958, quando o filme fez sensação no Festival de Veneza e o Vaticano ameaçou excomungar o diretor e sua atriz, Jeanne Moreau. Malle tratou depois de muitos temas que foram considerados tabu – a linguagem obscena de Raymond Queneau (‘Zazie’), o suicídio (’30 Anos Esta Noite’), o colaboracismo dos franceses com os nazistas (‘Lacombe Lucien’), a prostituição infantil (‘Pretty Baby’) etc. O curioso é que a permisssividade tomou conta de tal maneira do cinema que o famoso plano de Jean-Marc Bory desaparecendo da imagem para fazer sexo oral em Jeanne Moreau e ela tendo seu grande orgasmo hoje podia passar na sessão da tarde e no máximo alguma menininha de 3 anos ia perguntar o que está ocorrendo com ela. Jeanne Moreau é a Madame Bovary de Malle em ‘Os Amantes’. Na autobiografia da atriz, ela conta que namorava o diretor e viveu um dilema na hora da rodagem. Se fizesse a cena com intensidade, ela sabia que Malle não ia aguentar. A relação amorosa dela terminaria naquele dia, no set. Mas, como atriz, Jeanne não podia recuar. Fez a cena como devia, o diretor gritou corte e, na verdade, estava cortando a união afetiva. Permaneceram amigos (e ela fez outros filmes com ele). Sempre achei a história muito reveladora. Do quê, cada um é livre para interpretar. Mas quero falar uma coisa. Henri Decae é o fotógrafo de ‘Os Amantes’. Decae era – é? Estará vivo? – um mestre da imagem composta e bonita. Fotografou para Malle e François Truffaut (‘Os Incompreendidos’) como para René Clément, que era um diretor da ancienne vague e da tradição de qualidade que Truffaut detestava. Decae foi o fotógrafo de ‘O Sol por Testemunha’, por exemplo. Malle nunca foi caracteristicamente nouvelle vague, embora possa ser consdiderado um dos precursores do movimento. Já Truffaut era um dos chefe de fila do grupo (com Godard). Sempre me surpreendeu que Truffaut compartilhasse o fotógrafo dos diretores que desprezasse, mas foi só em ‘Les Quatre-Cents Coups’. Logo em seguida ele aderiu a Raoul Coutard, para ‘Jules et Jim’, e Coutard foi o grande fotógrafo da nouvelle vague. Volto a ‘Os Amantes’. Há algo de misterioso na beleza da imagem em preto e branco do filme. Depois que fazem sexo, Jeanne e Jean-Marc saem para o passeio noturno naquele jardim. Há algo de poético naquilo. Me lembra, mas é uma viagem muito subjetiva, alguma coisa do mistério de ‘O Mensageiro do Diabo’, de Charles Laughton. Havia revisto outro filme (francês) completamente diferente, ‘As Duas Faces da Felicidade’, de Agnès Varda. É um dos mais belos filmes em cores já feitos. Antônio Gonçalves filho, que também reviou Varda esta semana, conversava comigo sobre issooutro dia, no jornal. É verdade que a beleza não é só da imagem, propriamente dita. Claude Zidi (futuro diretor) era um dos fotógrafos (são três). Ao contrário da beleza ‘composta’ de Decae, a foto de ‘Le Bonheur’ é puro impressionismo e, assim sendo, me parece mais nouvelle vague. Tergiverso. Só recomendo que (re)vejam ‘As Duas Faces’ e ‘Os Amantes’, dois lançamentos em DVD.