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Luiz Carlos Merten

21 Março 2007 | 12h57

Pertenço a uma geração que nunca teve muito apreço por Fred Zinnemann. Ele era muito respeitado pelo P.F. Gastal, em Porto Alegre, pelo Moniz Vianna, no Rio, mas para nós, que éramos jovens em 1960, Zinnemann era um acadêmico superestimado e o protótipo do diretor ‘sério’ de Hollywood cujos grandes filmes não justificavam sua reputação. Mas ele teve o mérito, como se diz, de fazer avançar o cinema, impondo temas adultos em filmes como A Um Passo da Eternidade (o adultério, sobre um fundo de guerra) ou denunciando, no calor da hora, o macarthismo em Matar ou Morrer (coisa que, para o meu gosto, o Nicholas Ray fez melhor, curiosamente em outro western, o barroquíssimo Johnny Guitar, que é um dos meus cults mais queridos). Sério, o Zinnemann sempre foi e essa seriedade transparece em O Homem Que não Vendeu Sua Alma, sua cinebiografia de Sir Thomas More, que saiu em DVD, acho que comemorativo dos 40 anos, pois ganhou seis Oscars em 1966, incluindo melhor filme, diretor e ator (Paul Scoffield). O Homem Que não Vendeu Sua Alma trata do embate entre Henrique VIII e o filósofo que não cedeu ao despotismo real, quando o rei, para se divorciar de Catarina de Aragão e se casar com Ana Bolena – o que o Papa não autorizava –, criou uma dissidência da Igreja Católica. Acho o filme muito bonito, visualmente – e não foi por acaso que Ted Moore ganhou o Oscar de fotografia –, mas o Zinnemann sempre me aborrece com sua preocupação de passar mensagens explícitas e criar imagens lapidares, daqueles que não possibilitam outra classificação senão a de ‘artísticas’. Não gosto, mas não vou cometer o sacrilégio de coleguinhas que, quando ele morreu, há dez anos, disseram que, apesar do prestígio, Zinnemann não havia construído uma obra que expressasse um pensamento original e coerente. Toda a obra de Zinnemann é uma discussão muito coerente sobre o tema da consciência, tanto mais importante porque ele se consolidou como diretor justamente quando os EUA ingressavam no sombrio período macarthista. Um pouco dessa época de polarização política e ideológica aparece no filme de Robert De Niro, O Bom Pastor, que trata da divisão do mundo, após a 2ª Grande Guerra. De um lado, a democracia, e os EUA para defendê-la. De outro, o comunismo. Em nome do combate ao comunismo – ou da suspeita de anti-americanismo – criaram-se listas negras e o resultado foi uma mediocrização ainda maior da produção de Hollywood. Temas políticos, obras de denúncia tornaram-se perigosas. Zinnemann teve coragem de enfrentar esse sistema. Não é pouca coisa, mas não acredito que tenha sido um grande diretor. Para concluir – uma conseqüência, mesmo secundária, do sucesso de O Homem Que não Vendeu Sua Alma foi que o filme desencadeou uma série de novelões históricos, onde reis e rainhas, filmados sem o rigor de Zinnemann, lavavam roupa suja como qualquer família suburbana. Falo de O Leão no Inverno, de Anthony Harvey, que deu o Oscar de melhor atriz a Katharine Hepburn, e Ana dos Mil Dias, de Charles Jarrott, que candidatou (como Henrique VIII) Richard Burton ao prêmio da academia, uma das 15 ou 20 vezes (exagero) em que ele foi indicado, sem nunca ganhar, como melhor ator.