Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Prestígio (1)

Cultura

Luiz Carlos Merten

21 Março 2007 | 12h11

Cheguei ontem em casa e encontrei um pacote de DVDs da Sony, com, entre outros, dois filmes de prestígio da marca Columbia. Gandhi e O Homem Que não Vendeu Sua Alma. Não tenho muita paciência com a cinebiografia que Richard Attenborough fez de Mohandas Karamchand Gandhi, que entrou para a história como Mahatma Ghandi. O filme é hagiográfico (e acadêmico) demais para o meu gosto, mas o personagem se presta a este tipo de exaltação –ia escrever mistificação, mas com Ghandi não se brinca. Albert Einstein escreveu um dia: “As próximas gerações dificilmente acreditarão que uma pessoa como essa, em carne e osso, andou pela Terra.” Mahatma quer dizer: Grande Alma. Gandhi, o homem, virou lenda. Liderou uma campanha pacífica para a independência da Índia. Foi morto por um radical. No filme, o funeral é impressionante. Hoje em dia, o diretor Attenborough talvez pudesse reproduzir aquela multidão multiplicando meia-dúzia de gatos pingados no computador. Há 25 anos, ele reuniu 300 mil pessoas para um dia de filmagem. Duzentas mil foram voluntárias e as outras 100 mil receberam um pagamento simbólico. A cena foi filmada em 31 de janeiro de 1981, no próprio dia em que se comemoravam 33 anos do assassinato do Mahatma. Contar a história de Gandhi foi o sonho irrealizado de David Lean. (Ele também queria adaptar Nostromo, de Joseph Conrad, mas é outra história.) Pode-se apenas imaginar o que o poeta das revoluções faria com semelhante material. Ele certamente enquadraria Gandhi na sua galeria de heróis alienados, colhidos no turbilhão da grande história. David Lean não fez Gandhi, mas Richard Attenborough, com certeza, viu o mais belo dos épicos intimistas do grande diretor, Lawrence da Arábia. Viu, mas não absorveu a lição fundamental daquele clássico. Lean desmistificou Lawrence. Attenborough realiza o movimento inverso. Mistifica. Gandhi, o filme, compõe o que não deixa de ser uma coleção de slides edificantes. Por mais respeitável que seja a política da não violência pregada por Gandhi, menos respeito e um pouco mais de polêmica – que Lean certamente teria colocado em seu filme – seriam bem-vindos. Afinal, o homem era um santo, mas também era um fanático que pregou o suicídio coletivo dos judeus alemães como resistência ao nazismo, disse que os ingleses deviam deixar Hitler se apoderar “de sua bela ilha, mas não de suas mentes e seus espíritos” e também sugeriu aos etíopes que se deixassem massacrar por Mussolini, tudo em nome da não violência. Tenho até medo de escrever isso porque, quando o filme saiu pela primeira vez em DVD, coloquei um pouco dessas coisas num texto no Estadão e recebi uma carta de leitor me chamando de assassino. O cara, na verdade era uma mulher, presidente de não sei que ONG, dizia que num País com o alto índice de violência do Brasil – e a violência urbana só cresceu, de agosto de 2001 para cá – , era uma irresponsabilidade social atacar um filme como Gandhi, com sua mensagem de não violência. Entendo as boas intenções, mas estou falando de estética política, de arte. Reconheço que Richard Attenborough cria uma bela cena. Para manter-se puro, o Mahatma deixou de fazer sexo com a mulher. As lágrimas que ele verte por Kasturba, quando ela morre, talvez tenham outros significados que não aqueles obviamente explicitados. Mas não tem jeito. Acho Gandhi um monumento de tédio. O filme ganhou nove Oscars, incluindo melhor filme e direção, em 1982. Já que Einstein considerava Gandhi um ET, não custa lembrar que, aquele ano, havia outro extra-terrestre concorrendo aos prêmios da Academia de Hollywood. Eu, se fosse votante, teria dado meu voto ao alienígena de Steven Spielberg. Ah, sim, a nova edição de Gandhi é comemorativa do 25º aniversário do filme e traz extras inéditos.