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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2009 | 13h38

Depois de duas tentativas, na sexta e sábado, consegui ver ontem ‘A Montanha Enfeitiçada’. Diverti-me muito, mas não sei por que cargas d’água entrei no cinema achando que o filme era com Brendan Fraser, em vez de Dwayne Johnson. O ex-The Rock estava lá na tela e eu esperando, a todo momento, ver o astro de ‘A Múmia’ adentrar a imagem para conduzir o filme por sei-lá-que-rumos. ‘A Montanha’ é remake de uma produção da Disney dos anos 70. O original era dirigido por John Hough e teve uma sequência assinada pelo mesmo diretor, ‘Retorno à Montanha Enfeitiçada’. Ambos viraram cults, e o segundo tinha Bette Davis como vilã, numa participação ótima (qual a novidade, tratando-se dela?). A nova versão faz de Dwayne Johnson um motorista de táxi de Las Vegas às voltas com casal de irmãos. No primeiro filme, eles tinham poderes paranormais. Agora, continuam com poderes, mas são ETs disfarçados como típicos adolescentes wasps. O filme era uma fantasia de mistério. Agora, é ficção científica. Há outra mudança, mais importante ainda e é na carreira do astro. The Rock cansou de ser brucutu e agora investe numa linha mais light, de ação com humor e efeitos para plateias infanto-juvenis. Como, no que tange à diversão, me incluo nessa faixa que vai de crianças dos 8 aos 80, posso dizer que o filme foi feito para mim. Gostei particularmente dos adolescentes, escolhidos a dedo para lembrar as crianças de ‘A Aldeia dos Amaldiçoados’, clássico fantástico de Wolf Rilla, que John Carpenter mediocrizou ao refilmar como terror. As crianças têm aquele rosto que produz estranhamento. Ficam o tempo todo perplexas com a idéia que os terráqueos fazem de alienígenas. Quando o assassino do espaço é desmascarado pelo herói, surge aquela coisa gosmenta, mas as criançãs permanecem daquele jeito até o fim, para que não se rompa o cordão umbilical que nos une a elas. Ponto para o diretor Alan Fickman. O filme é meio colcha de retalhos, mas bem feito e com humor – a convenção de partidários dos contatos imediatos em Las Vegas incorpora salutar dose de autocrítica ao relato. Some-se a isso outra crítica, ao espírito belicoso e paranóico, do governo norte-americano, leia-se a adminstração George W. Bush, e a diversão ganha até certa consequência. O mais interessante é que há um lado ‘Presságio’ em ‘A Montanha Enfeitiçada’. Eu, que não havia gostado nem um pouco da fantasia de Alex Proyas com Nicolas Cage, achei ‘A Montanha’ bem mais simpático.