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Luiz Carlos Merten

13 Março 2007 | 10h52

Fui ontem assistir à entrega do Prêmio Jairo Ferreira, no Cinesesc, que precedia a apresentação do novo filme do Beto Brant, Cão sem Dono. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Não me lembro de alguma vez haver falado com o Jairo, mas sei quem era e até li alguma coisa que ele escreveu, menos em livro do que nos arquivos do Estado. Às vezes faço alguma pesquisa e encontro, principalmente em pastas de diretores brasileiros, velhos textos que a memória do jornal resguarda para sempre. Um breve intervalo – certa vez, briguei com um diretor de São Paulo, nem importa quem foi. Já passou. Mas ele me escreveu alguma coisa desaforada do tipo que os filmes dele iam ficar e que os meus textos no dia seguinte já estavam enrolando peixe, na feira livre. Por acaso, naquela semana estava recebendo meu livro editado pela Prefeitura de Porto Alegre, com textos dos anos 70 e princípio dos 80. Pois é – a gente quer ser impune, diz que o jornal é um produto perecível, mas o que a gente escreve, seja o Jairo Ferreira ou eu, permanece. Jairo foi certamente, pelos seus escritos, uma personalidade incomum, polêmica e avesso às convenções. Não gostei muito do curta dele que precedeu a noite, O Guru e os Guris, uma coisa muito datada, mas enfim… O curioso foi a premiação. Não discuto a crítica ‘independente’ nem os próprios prêmios, com os quais até concordo. Só achei muito previsível e imaginava que um prêmio em homenagem ao Jairo não seria tão previsível assim. Quando cheguei e perguntei ao Chiquinho, Francisco César Filho, que, além de divulgador era o mestre de cerimônias da cerimônia, quais eram as categorias e os indicados, ele começou pela de melhor lançamento nacional, que não precisava, disse ele, ser necessariamente um filme lançado nos cinemas. Imediatamente, retruquei – sei, para premiar Serras da Desordem, do Andrea Tonacci. Não deu outra. O prêmio para melhor lançamento estrangeiro, dados os finalistas, só poderia ir para Amantes Constantes, do Philippe Garrel (e o Jean-Thomas, da distribuidora Imovision, estava lá para recebê-lo). O melhor lançamento em DVD? Alguma dúvida de que seria Terra em Transe, do Glauber? Confesso que só quebrei a cara no melhor ciclo do ano. Deu a mostra Agnès Varda, autora a quem admiro muito, mas que confesso que ela, pessoalmente, me surpreendeu, quando a conheci. Agnès fez aqueles filmes tão belos, tão delicados – Cléo das 5 às 7 e Le Bonheur (As Duas Faces da Felicidade). Era casada com Jacques Démy. Ele devia ser a parte feminina da relação. Ela me pareceu um trator, mas é um diretora muito interessante. Não imaginava que a mostra Varda fosse vencedora. Foi a minha única surpresa da noite, mas depois pensei com meus botões – não haveria de ser a mostra reiventando a política, que trouxe a São Paulo o redator-chefe de Cahiers du Cinéma, Jean-Michel (é Michel, não?) Frodon, para dizer que Hollywood respondeu ao 11 de Setembro com a politização de sua produção e que o cinema americano é o mais político da atualidade. Tolinho que sou. Não achava que Varda fosse ganhar, mas votaria nela, naqueles cinco.

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