Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Preminger

Cultura

Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2006 | 12h40

Um pacote de DVDs da Fox resgata três preciosidades – Laura, o clássico noir de Otto Preminger; Suplício de Uma Saudade, o clássico romântico de Henry King; e Um Barco e Nove Destinos, o menos característico dos filmes de Alfred Hitchcock. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Laura esculpiu não apenas o mito de Preminger como o de Gene Tierney, mas há uma história segundo a qual o grande diretor deu um golpe em Rouben Mamoulián, o diretor original, e assumiu a realização, valendo-se do fato de que era produtor executivo. Histórias à parte, a única foto conhecida da Laura de Mamoulián mostra personagens usando um horroroso guarda-roupa em que os vestidos das mulheres se assemelham a túnicas greco-romanas. Nada a ver com a modernidade que Preminger imprimiu à história do policial que investiga uma mulher que desapareceu, apaixona-se pelo quadro que a representa, adormece e… Tchã! Laura está ali, viva, uma promessa carnal, diante dele. Já virou lugar-comum dizer que Preminger não apenas usou sua sensibilidade ‘européia’ (era austríaco) para inventar o filme noir como, nos anos seguintes (Laura é de 1944), bateu-se contra o código de autocensura vigente em Hollywood para tornar o cinema americano mais adulto. Tudo isso é verdade, mas as grandes lições de Preminger tendem a ser subestimadas – sua mise-en-scène baseia-se no plano-seqüência e nisso ele foi pioneiro; e seus filmes da grande fase, no começo dos anos 60, usam a tela larga para criar vazios no plano, como se o autor, não me lembro qual foi o crítico francês que disse isso, quisesse criar uma ‘escrita branca’, de forma a que suas imposições de cineasta tendessem a desaparecer, deixando o espectador livre para fazer as próprias escolhas. Esta fase coincide com os temas ‘maiores que a vida’ – política, revolução, Igreja, Exército. Tempestade sobre Washington, Exodus, O Cardeal, A Primeira Vitória vão ao limite da crítica de Preminger ao embate entre o homem e a instituição. o desfecho de O Cardeal beira o sublime – o velho Tom Tryon no foco da luz que sai daquele vitral, na igreja de pedra. Só nos sabemos tudo o que ele perdeu (o amor, principalmente) para chegar ali, àquele instante. Em 1965, Preminger voltou a Laura e realizou, com Bunny Lake Desapareceu, seu último grande filme. A partir daí, sua decadência foi vertiginosa. Não sei, devo estar romântico hoje, mas 1965 foi o ano da morte de Dorothy Dandridge, por quem Preminger foi apaixonado e a quem dirigiu em dois grandes filmes (Carmen Jones e Porgy e Bess). O homem que enfrentou Hollywood pela defesa de expressão artística não enfrentou o racismo da indústria, embora tenha feito filmes fortes sobre (e contra) o racismo. A morte de Dorothy tem a ver com essa decadência que até hoje espanta os admiradores do artista? Num momento, ele era o gênio; no seguinte, menos que medíocre. Como? Por que? O post está ficando muito longo, falo dos filmes de Henry King e Hitchcock a seguir.